Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 09 de Novembro de 2016 às 19:55

A estrutura do Novo Mundo

Nem Deus nem a democracia são origem de todos os males, estes são o que as sociedades fazem de Deus e da democracia.

Depois de um tremor de terra, o que se recomenda é enterrar os mortos e tratar dos vivos. Mas não ignorando uma recomendação complementar: que o que desaparece no fim de uma ilusão não deve ser enterrado sem registar o que se viu nesse momento crítico, para que não se tente construir uma nova ilusão em cima dos destroços da que acabou. Donald Trump é a evidência do tremor de terra, mas este é apenas o sintoma da falha sísmica: as sociedades modernas nos tempos da globalização estão assentes em placas tectónicas em movimento que, quando chocam, destroem o que tiver sido construído em cima delas. O sintoma merece estudo, mas o que interessa é a identificação das placas e a interpretação dos seus movimentos.

 

A estruturação da ordem no espaço nacional resulta da articulação das esferas económica, política e social, e a estruturação da ordem no espaço mundial resulta da articulação das diversas estruturas de ordem que são estabelecidas no nível nacional. A evolução deste conjunto de estruturas de ordem, interna e externa, resulta dos movimentos de expansão e de contracção das três esferas económica, política e social, o que estabelece as condições de aliança ou de conflitualidade que determinam as áreas de influência na ordem mundial. Os movimentos geradores de crises surgem quando a expansão e a contracção das esferas não estão sintonizadas ou quando um primeiro desequilíbrio entre elas não é corrigido antes de atingir o ponto que desencadeia um processo de desequilíbrios cumulativos.

 

O processo de globalização económica que está em desenvolvimento desde o fim da Segunda Guerra Mundial (que ainda foi um projecto de globalização imperial da Alemanha e do Japão) gerou um aumento de tensão na articulação das três esferas, provocando fragmentação em cada uma (entre os que continuavam locais e os que se tornavam globais, entre os que queriam a protecção nacional e os que precisavam da escala global para serem competitivos) e dualizando a esfera política entre a escala nacional (onde estão os eleitores que fazem ganhar e perder eleições) e a escala global (onde se decide a modernização competitiva, onde se estabelecem as alianças que determinam a intensidade do poder e a amplitude do espaço de influência). É no centro condutor deste processo, os Estados Unidos da América, que este aumento da tensão na articulação das três esferas gerou uma catástrofe crítica: tudo o que destrói agora não oferece base segura ou recursos adequados para o futuro.

 

Sendo o sintoma desta crise, Donald Trump é também o que aparece como vencedor, com a responsabilidade de construir o futuro a partir da sua promessa de populismo nacionalista. Porém, o populismo não é um programa, é um oportunismo, que usa os que perdem na competição e que precisam do distributivismo nacionalista contra os que ganham na competição e precisam de sair da pequena escala nacional. Quem conquista o poder por esta via fica preso de um passado que já não existe e não poderá construir um futuro que não é compatível com a promessa em que se baseia a sua legitimidade democrática.

Esta será a nova crise da democracia para os que ficam vivos depois da catástrofe. Terão de enfrentar a fragmentação das esferas económica, social e política, todas divididas entre o nacional e o global, o competitivo e o distributivo, entre o tradicional e o moderno, num mundo novo sem estruturação de ordem. Não há mapa, mas navegar é preciso.

 

E é útil recordar Voltaire, interpretando o terramoto de Lisboa, para esclarecer o papel de Deus (ou da democracia) nas crises catastróficas, aquelas que mostram que não se estava no melhor dos mundos nem no fim da História: ou Deus quis impedir o mal e não pôde, ou pôde e não quis; ou mesmo nem quis nem pôde; se quis e não pôde, não é Deus; se pôde e não quis, não é bom; se quer e pode, qual a origem de todos os males? Nem Deus nem a democracia são origem de todos os males, estes são o que as sociedades fazem de Deus e da democracia.

 

Analista político

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