Fernando  Sobral
Fernando Sobral 12 de março de 2017 às 19:30

A Europa imóvel 

Parménides, o filósofo grego, acreditava que o ser era imutável e eterno e que a aparência de mudança que os nossos sentidos notam é um puro engano. Tudo permanece igual. A União Europeia é um fruto tardio das ideias de Parménides.

Finge que muda, mas a sua imobilidade é digna de uma torre de cimento. Os fantasiosos debates sobre o futuro do condomínio de países que já só têm o euro para os unir mostram o estado da desgraça. Juncker atira várias pedras para o charco para ver se os Estados deixam de moer a cabeça à CE, culpando-a de tudo, e decidem qualquer coisa. Os fantásticos quatro que se juntaram em Versalhes querem uma Europa a várias velocidades, porque de outra forma "rebenta", na formulação de Hollande, o mais sofrível dos líderes das chamadas grandes nações. A crise de identidade, política, económica e moral da Europa não se resolve com botox. Porque o que transparece destas pretensas posições de força é uma marcha de acorrentados derrotados rumo a parte nenhuma. Hollande nunca conseguiu que França fosse o necessário contraponto à Alemanha e aos seus apaniguados (a começar pelo inenarrável Jeroen Dijsselbloem, que António Costa já disse que era bom que saísse de cena em velocidade de "sprinter"). Pelo contrário: tornou-se um porta-voz oficioso de Berlim. Seria bom que tivesse sido menos um imitador e mais um criador. Como a Alemanha vive obcecada pelos excessos comerciais que estão a levar à ruína a Europa do Sul, o ambiente é de terror.

 

A Europa, apesar do apoio unânime a Donald Tusk, está dividida. Não sabe o que fazer com a emigração nem com as assimetrias entre o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste. O actual estado pantanoso das coisas só agrada ao cardume que se alimenta dos fundos que chegam a Bruxelas e Estrasburgo. A burocracia europeia, essa nova aristocracia, não quer nem ouvir falar em mudanças. Ou seja, a Europa é uma história de fantasmas. Face a tudo isso a palavra mítica é: "Reformas estruturais": pedem-se, mas não se aplicam em casa. Deixam-se para países como Portugal.

 

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