Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 12 de Janeiro de 2017 às 20:11

A experiência profissional negativa

Só por si, o tempo não traz experiência. Os anos que passam, só por si, não fazem ninguém mais capaz. A performance excepcional assenta de facto em dezenas de milhares de horas de prática.

Há profissões, no entanto, em que a experiência parece não ter efeito. Em geral, pode dizer-se que há quem melhore com o tempo, quem fique na mesma e quem piore.

 

Em profissões técnicas há especialistas ultrapassados por estudantes, profissionais em início de carreira com melhores registos do que profissionais experimentados. Por exemplo, estudos sobre psicoterapia, publicados na American Psychologist, mostram que o desempenho de estagiários é muitas vezes o mesmo que o de especialistas. O mesmo padrão foi constatado em tarefas variadas. Investigação sobre a auscultação cardíaca, por exemplo, sugere a diminuição da qualidade do desempenho à medida que o tempo passa. Admitia-se que a competência nessa tarefa, como em muitas outras, subiria nos primeiros sete a oito anos de prática, estabilizando a partir daí. Os resultados de três estudos, publicados entre 2004 e 2007, indicam outra coisa: a competência avança de facto, mas muito ligeiramente e apenas nos primeiros dois a três anos de prática; e ao fim de dez anos começa a descer.

 

Parece um paradoxo: por um lado, a experiência é necessária; por outro lado, a experiência não é suficiente para chegar ao topo. O que faz então diferença? A resposta não é simples, evidentemente. Alguma predisposição inata, para esta ou aquela actividade pesa, seguramente; como pesa a determinação no que fazemos; como pesam as condições competitivas a que estejamos sujeitos. Tudo isso pesa, mas não determina. Neste quadro, um aspecto central para o alto desempenho é o "feedback": o resultado factual e em tempo real das nossas acções. Há actividades que assentam no "feedback" ou que o facilitam, por exemplo, pilotar automóveis ou jogar golfe ou ténis; e há actividades que dificultam o "feedback", ou que o atrasam, diminuindo a sua eficácia, por exemplo, o recrutamento ou os diagnósticos de saúde. É mais fácil aprender a guiar um automóvel do que aprender a navegar um barco, comentou Kahneman, o Nobel da Economia - no automóvel, o "feedback" é imediato; no barco, o que fazemos agora só se vê algum tempo depois.

 

A boa experiência não resulta apenas de trabalhar muito tempo. Em piloto automático poupamos energia e libertamos tempo, mas ignoramos erros e somos inflexíveis e não acrescentamos nada à experiência. A experiência que faz a diferença é a que assenta na capacidade de obter "feedback" e na aprendizagem com os erros e não na repetição das mesmas acções. Piorar com o tempo não é raro, acontece. O antídoto é não entrar em piloto automático.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa
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