Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 13 de dezembro de 2017 às 14:00

A exuberância racional de hoje

O que muitos analistas ainda vêem como uma bolha temporária, impulsionada por estímulos monetários artificiais e insustentáveis, está a tornar-se numa expansão estrutural da actividade económica, lucros e emprego, que provavelmente ainda tem muito mais anos pela frente.

Com os preços das acções em todo o mundo a marcar novos recordes quase diariamente, é tentador questionar se os mercados entraram num período de "exuberância irracional" e estão a caminho de uma queda. Provavelmente a resposta é não.

 

O que muitos analistas ainda vêem como uma bolha temporária, impulsionada por estímulos monetários artificiais e insustentáveis, está a tornar-se numa expansão estrutural da actividade económica, lucros e emprego, que provavelmente ainda tem muito mais anos pela frente. Há pelo menos quatro razões para este optimismo.

 

Em primeiro lugar, a economia mundial está a avançar a todo o vapor, com os Estados Unidos, a Europa e a China a registarem, simultaneamente, um crescimento económico robusto pela primeira vez desde 2008. Eventualmente, essas expansões simultâneas enfrentarão o desafio da inflação e taxas de juro mais elevadas. Mas, tendo em conta o elevado desemprego na Europa e a capacidade excedentária na China, além das persistentes pressões deflacionárias decorrentes da tecnologia e da concorrência global, os perigos de sobreaquecimento estão a anos de distância.

 

Sem evidências claras de uma inflação rápida, os banqueiros centrais preferem arriscar-se a estimular demais as suas economias em vez de restringir prematuramente a política monetária. Não há, portanto, quase nenhuma hipótese de um regresso rápido ao que costumavam ser consideradas condições monetárias "normais" - por exemplo, as taxas de juro de curto prazo dos EUA aumentarem para o seu nível médio pré-crise de inflação mais cerca de 2%.  

 

Em vez disso, as taxas de juro muito baixas deverão persistir pelo menos até ao final da década. E isso significa que as avaliações actuais do mercado de acções, que implicam retornos prospectivos de 4% ou 5% acima da inflação, ainda são atractivas.

 

Um segundo motivo para esta confiança é que o impacto financeiro das taxas de juro zero e a vasta expansão do dinheiro dos bancos centrais conhecida como "flexibilização quantitativa" (QE) são agora muito mais bem compreendidos do que quando foram introduzidos após a crise de 2008. Nos primeiros anos destas experiências sem precedentes ao nível da política monetária, os investidores temiam que falhassem ou provocassem uma instabilidade financeira ainda maior. Os estímulos monetários foram frequentemente comparados a uma droga, que produziria uma breve recuperação da actividade económica e dos preços dos activos, seguida, inevitavelmente, por uma queda assim que os estímulos artificiais fossem retirados ou mesmo reduzidos.

 

Muitos investidores ainda acreditam que a recuperação pós-crise está condenada, porque foi desencadeada por políticas monetárias insustentáveis. Mas isso não é mais uma visão razoável. A verdade é que a política monetária experimental produziu resultados positivos. A Reserva Federal dos EUA, que foi pioneira nas experiências pós-crise com taxas de juro zero e QE, começou a reduzir as suas compras de títulos de longo prazo no início de 2014, parou completamente o QE mais tarde nesse ano e começou a aumentar as taxas de juro em 2015 - tudo sem produzir os efeitos previstos pelos cépticos.

 

Em vez de cair em recessão ou estagnação secular, a economia dos EUA continuou a crescer e a criar empregos à medida que os estímulos foram reduzidos e depois parados. E os preços dos activos, longe de afundarem, atingiram novos máximos e aceleraram a partir do início de 2013 - exactamente quando a Fed começou a falar de reduzir o QE.

 

A experimentação política da Fed aponta para um terceiro motivo de optimismo. Ao demonstrar o sucesso dos estímulos monetários, os EUA forneceram um guia que outros países seguiram, mas com atrasos longos e variáveis. O Japão iniciou os estímulos monetários em 2013, cinco anos após a Fed. A Europa ficou atrasada em sete anos, iniciando o QE em Março de 2015. E em muitas economias emergentes, os estímulos monetários e a recuperação económica só começaram este ano. Como resultado, os ciclos económicos e a política monetária estão menos sincronizados do que em qualquer expansão global anterior.

 

São boas notícias para os investidores. Ao passo que a Fed está a aumentar os juros, a Europa e o Japão estão a planear mantê-los próximos de zero, pelo menos até ao final da década, o que irá moderar os efeitos negativos do aperto monetário dos EUA nos mercados de activos em todo o mundo, enquanto o desemprego europeu e o excesso de capacidade asiática atrasará a pressão ascendente sobre os preços normalmente criada por uma expansão global coordenada.

 

Isto sugere a quarta razão pela qual o mercado touro global irá continuar. Enquanto os lucros das empresas norte-americanas, que estão a subir há sete anos, terão atingido provavelmente o limite, o aumento cíclico dos lucros fora dos EUA só começou recentemente e criará novas oportunidades de investimento. Assim, mesmo que as condições de investimento dos EUA se tornem menos favoráveis, a Europa, o Japão e muitos mercados emergentes estão agora a entrar no ponto ideal dos seus ciclos de investimento: os lucros estão a aumentar fortemente, mas as taxas de juro permanecem muito baixas.

 

Naturalmente, todas estas razões cíclicas para o optimismo são desafiadas por ansiedades estruturais de longo prazo. As taxas de juro baixas podem realmente compensar o aumento do endividamento? A produtividade está realmente a cair, como sugere a maioria das estatísticas económicas, ou a acelerar, como sugerem os avanços tecnológicos? O nacionalismo e o proteccionismo estão a preparar-se para dominar a globalização e a concorrência? Será que a desigualdade será reduzida pela criação de emprego ou aumentará, provocando agitação política?

 

A lista poderia continuar. Mas estas questões estruturais têm algo em comum: não saberemos as verdadeiras respostas por muitos anos. Uma coisa que podemos dizer com confiança, contudo, é que as expectativas do mercado sobre o que pode acontecer a longo prazo são fortemente influenciadas por condições cíclicas de curto prazo que são visíveis hoje.

 

Durante as recessões, a opinião dos investidores é dominada por ansiedades a longo prazo sobre o endividamento, o envelhecimento e o fraco crescimento da produtividade, como tem acontecido desde 2008. Em períodos de crescimento, a psicologia muda para os benefícios dos juros baixos, alavancagem e progresso tecnológico.

 

Quando esta mudança optimista vai demasiado longe, as avaliações dos activos aumentam exponencialmente e o mercado touro atinge um clímax perigoso. Alguns activos especulativos, como as moedas virtuais, já atingiram este ponto, e as acções - até mesmo das melhores empresas públicas - são susceptíveis de sofrer retrocessos temporários se subirem demasiado rápido. Mas para os mercados accionistas, em geral, as avaliações ainda não são excessivas, e os investidores estão longe de estar eufóricos. Enquanto essa cautela continuar, os preços dos activos são mais propensos a aumentar do que a cair.

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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