Luís Pais Antunes
Luís Pais Antunes 17 de outubro de 2017 às 20:10

A falta de vergonha devia pagar imposto

Aparentemente ninguém antecipava uma tragédia como aquela que ocorreu em Pedrógão, fez ontem exatamente quatro meses. Disse-se então tudo e o seu contrário, prometeram-se análises, relatórios e uma completa identificação dos responsáveis.

Tudo o que podia correr mal correu pior e poucos quiseram ou souberam responder por isso. 120 dias depois, a tragédia repete-se, com mais algumas dezenas de mortos, feridos e desaparecidos, milhares de hectares varridos pelo fogo, um sem-fim de destruição e muitas famílias devastadas pela dor e pelo sofrimento.

 

Ouvimos todos até à exaustão falar da excecionalidade das circunstâncias, do verão anormalmente longo, da seca persistente e dos comportamentos de risco (ou até intencionalmente criminosos). Não duvido de que assim seja. Mas o aparelho de Estado existe para proteger as pessoas. Não é para se proteger a si mesmo, nem para explicar as razões que justificam o que correu mal. Sabendo que me estou a repetir - porque o escrevi poucos dias depois da tragédia de Pedrógão -, "quando falha na proteção das pessoas, um Estado que tão forte é na cobrança de taxas e impostos e na distribuição de benesses aos seus mais próximos transforma-se num gigante de pés de barro e mina a confiança que nele a comunidade depositava".

 

De incêndios e da floresta sei muito pouco, a exemplo - ao que parece - dos que se arrogam ter feito a maior reforma florestal desde os tempos de D. Dinis. Desconheço os meandros da proteção civil e as especificidades dos meios de combate, aéreos ou terrestres. Não sei, nem pretendo saber o que podia ou devia ter sido feito nestes últimos quatro meses para minorar o risco de voltarmos a assistir às mesmas consequências de erros antigos. Mas 60 anos de vida ajudam-me a identificar sem grande dificuldade a total falta de vergonha e as desculpas de mau pagador.

 

Aquilo a que temos assistido nos últimos meses em matéria de desresponsabilização dos poderes públicos é um espetáculo deprimente, que mistura declarações patéticas e infelizes com a mais grosseira irresponsabilidade e incapacidade. A noite de segunda-feira e a terça-feira não foram exceção, com governantes e dirigentes de cabeça perdida a repetirem insanidades de circunstância, como se a realidade não fosse já suficientemente dolorosa. Estranhamente - ou talvez não… -, aqueles que num passado não muito distante soltavam revolucionários impropérios e insultos a propósito da mais pequena contrariedade remetem-se agora ao mais recatado silêncio, ocupados que estão certamente a contabilizar as mais recentes benesses orçamentais e a identificar os próximos despojos.

 

Mais logo chegarão os inevitáveis pedidos de demissão. Sinceramente, no ponto em que as coisas estão, diria que é irrelevante. Já há muito que os titulares dos cargos em causa só o são formalmente e a sua renovada permanência é mais um castigo do que um prémio.

 

O mal está feito. Não se pedem milagres, nem soluções mágicas. Apenas um pedido de desculpas a quem o merece mais do que ninguém - em primeiro lugar às vítimas e às suas famílias, mas também aos milhões de portugueses que alimentam um Estado incauto e incompetente - e a humildade de reconhecer que se voltou a falhar gravemente numa situação em que tal não podia acontecer de novo. E já agora, que estamos em fase de discussão orçamental, talvez não fosse má ideia lançar um forte tributo sobre a falta de vergonha: não diminuía o défice de responsabilidade, mas sempre ajudava a abater a dívida…

 

Advogado    

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo Há 5 dias

É resultado de Portugal ter atingido o nível mais baixo de investimento público em percentagem do PIB desde 1960, numa altura em que tão grandes transformações nas sociedades, assentes no capital com elevada incorporação de tecnologia que poupa grandemente em factor trabalho elevando a produtividade, a competitividade, a eficiência e a economia de produtos, tarefas e processos, se está a dar em toda a parte. A assinatura de mais este triste descalabro, claro está, é a do PS e da sua geringonça das esquerdas unidas.

comentários mais recentes
A VARINA DAS PEIXEIRADAS É TUA FAMÍLIA POLÍTICA Há 5 dias

Este direitolas deve supor que está a escrever para acanhados mentais.
Quem não tem ponta de vergonha nas trombas é Assunção Cristas que, tendo sido Min. Agricultura, NADA tendo feito de ORDENAMENTO DA FLORESTA, além de ter ainda incentivado o plantio de eucaliptos, vem pôr uma MOÇÃO DE CENSURA.

anonimo Há 5 dias

Quando vejo as críticas virem de determinadas pessoas, fico enojado: O que é que estes senhores lá do alto dos suas mordomias , fizeram em prol do País, ou dos atingidos por estas catástrofes.NADA

Varela Há 5 dias

Ainda não li uma única frase de alguém que tenha andado no meio das matas a apagar fogos. Uma única. Todos os sentadinhos à mesa, a escrever nos computadores com uma cafézinho à frente, e a ver chover pela janela, opinam. "A culpa é deste, não funcionou, deixaram morrer, não fizeram bem, bandidos, malandros, não sabem apagar fogos, não havia bombeiros..." pobres coitados.

Mr.Tuga Há 5 dias

Certo.

Mas enquanto subsistir a total IMPUNIDADE com os DESLEIXADOS, NEGLIGENTES e CRIMINOSOS, vai continuar tudo na mesma.... Excepto quando acabar a floresta ou a agua nas albufeiras e barragens....

O tuga é um sebento TROGLODITA AMBIENTAL!

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