André Macedo
André Macedo 17 de outubro de 2017 às 21:50

A fatalidade de Costa

Já tivemos a dose de políticos empáticos, primeiros-ministros e presidentes que se comoviam e tornavam os assuntos pessoais, como se fossem coisas deles, a educação, um desastre qualquer, um problema num lugar qualquer do mundo.
Na realidade, Marcelo é assim, próximo e solidário, embora não seja do género piegas, é mais do tipo físico, gosta de abraçar e estar ao pé das pessoas, faz política assim. Fosse ele primeiro-ministro e seria pouco, talvez até demagógico. Não o sendo, ocupa um espaço essencial no país: alivia um pouco a pressão, desfaz algum isolamento, aproxima as pessoas da política, dá uma mão ao primeiro-ministro. Mas dar uma mão não é tudo. Não chega em circunstâncias excecionais.

Anteontem à noite, António Costa falou sobre a desgraça e o luto do fim de semana. Podia ter dito o que disse, mas tinha de ir muito, muito mais longe. Foi seco, foi impessoal, foi gelado, não tranquilizou ninguém, pareceu mais preocupado com a sua proteção política - e da sua ministra -, do que com o país. Talvez eu esteja a ser injusto, mas foi o que pareceu.

Miguel Relvas disse há semanas ao "Expresso" que Costa não era imbatível em eleições, bem pelo contrário, os resultados - como ficou claro nas últimas legislativas - costumam ficar curtos, mesmo em momentos favoráveis. Uma das explicações para esta fraqueza tem a ver com a frieza de Costa, a incapacidade para sair um pouco do cargo institucional e largar o teleponto. O problema é que poderia compensar este desequilíbrio mostrando uma vontade férrea em corrigir os terríveis erros cometidos. Como é possível ter permitido que o dispositivo de combate aos incêndios fosse drasticamente reduzido a 1 de outubro? Como? Só há uma resposta: facilitismo.

As condições são terríveis, seca extrema, calor inclemente, muito vento, anos e anos de confusão e desordenamento no território, nada disto pode ser imputado (apenas) ao primeiro-ministro ou à ministra - é antes o resultado do que somos como portugueses -, mas a resposta que deram aos riscos revela o seguinte: incrivelmente não compreenderam o que aconteceu em Pedrógão. Por isso, desligaram a 1 de outubro. Hoje eu não sei quem manda na proteção civil, nos bombeiros e etc. Não estamos seguros. E isso é fatal. 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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comentários mais recentes
Anónimo Há 4 semanas

Isso é fatal? Ah pois é! É como o intestino, quando está cheio, ver-te. E até cheira mal, como é o caso presente.

Que dizer de Marquê de Pombal ! que 1755 Há 4 semanas

após o terramoto, disse: Vamos enterrar os mortos e tratar dos vivos. Pelos visto se fosse hoje era fuzilado. Os "mordem canelas" julgam tudo e todos, sem um mínimo de coerência com factos reais. Acusam este governo não ter ( JÁ em 2 anos) feito aquilo que nunca foi feito por ninguém.

Anónimo Há 1 dia

Uma boa analise. Eu sentia uma melhoria no país, mais trajectórias e novas perspectivas de futuro. O céu ficou mais cinzento, mas continuo a acreditar que vamos no caminho correcto.