Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 18 de dezembro de 2017 às 20:15

A febre do Bitcoin

O Bitcoin (BTC) suscitou no presente mês de Dezembro um conjunto de movimentos que o transformou de mera curiosidade tecnológico-financeira num assunto a suscitar real interesse nas mais diversas esferas da sociedade e a obrigar os bancos centrais e os governos a encararem a coisa seriamente.

Fosse o BTC uma moeda e o seu sucesso estava assegurado: o seu valor em circulação já é próximo de $300 biliões. Seria a 5ª moeda mundial, a seguir ao dólar, euro, yuan e yen e à frente do rublo da libra e do franco suíço.

 

Mas, contra as pretensões dos seus criadores, o BTC não é nem virá a ser uma moeda.

 

A criação em 2009 e a forte penetração recente do BTC resultou da aspiração a uma moeda estável, contra os excessos dos bancos centrais. A esperança era a entrada numa nova era com o afastamento das moedas fiduciárias com uma banca livre e sem a ameaça da inflação.

 

O BTC não é uma moeda

 

O BTC é um investimento especulativo na tecnologia "blockchain", mas como moeda não tem futuro. É uma inovação tecnológica com valor acrescentado significativo. A valorização do BTC não releva das sua qualidades enquanto moeda mas dos serviços como instrumento de especulação. A SEC americana, correctamente, considera-o no grupo das "equities". É uma fraca reserva de valor - não é estável nem confiável.

 

O BTC não cumpre as funções tradicionais da moeda. Em especial: não é um meio geral de troca e no actual contexto institucional não tem curso legal e não virá a ser unidade de conta não tributária das moedas tradicionais.

 

O projecto inicial do BTC - descentralização monetária sem moeda mercadoria - não é sustentável.

 

As reacções oficiais ao BTC, num primeiro momento, foram de rejeição e menosprezo. Depois evoluíram. Quanto mais seguro e desejado maior o incentivo para a acção do governo. Embora os governos não o possam controlar directamente, vão inclui-lo no sistema financeiro regulado. Basta declarar como criminosos os detentores de Bitcoins que não cooperem.

 

O impulso da disputa asiática

Em Abril de 2017 o Japão reconhece o curso legal do BTC e, em Setembro, reconhece 11 empresas como agentes cambiais da nova entidade. O preço do BTC dispara de 1.087 $ em 1/4/2017 para 4.748 $ em 31/8/2017 e de 6.106$ em 30/10/2017 para 17.276$ em 12/12/2017. Esta evolução compara com o facto de nos últimos 3 anos (2014 a 2016) o valor ter conhecido relativa estabilidade, grosso modo entre 200 $ e 1.000 $.

 

O Japão torna-se o epicentro do BTC, tomando o lugar da China. Entre 2014 e Janeiro de 2017 o mercado chinês representava 90% dos negócios do BTC. Agora o negócio está mais distribuído, mas só o Japão já representa 50%.

 

A recente febre do BTC resultou, em grande parte, da iniciativa estatal japonesa destinada da estimular as fintech, a combater o declínio do Japão e a ascensão chinesa na área financeira.

 

A imutável natureza da moeda e a indestrutível "relíquia bárbara"

 

No fim de contas, o ouro continua a reluzir, contrariando a maldição de Keynes contra o que apelidou de relíquia bárbara. Brilha em cada esquina nas ruas de todo o mundo, no imaginário e nas poupanças de todos os povos e - ironicamente - nos balanços e cofres fortes de todos os bancos centrais.

 

O incómodo inicial que motivou a criação do BTC é real. Mas as suas pretensões são manifestamente exageradas: a substituição do ouro como base dos sistemas monetários (que resultou dum processo histórico de séculos) por um genial golpe matemático.

 

Economista e professor do ISEG

 

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