Fernando  Sobral
Fernando Sobral 09 de Novembro de 2016 às 09:51

A felicidade e a crise de valores

No meio da espuma dos dias esquece-se muitas vezes o pensamento mais profundo. Aquele que perdura para lá da guerrilha diária de frases que servem para alimentar a abertura dos telejornais.

A entrevista do filósofo Zygmunt Bauman ao El Mundo é um bom momento para parar. E pensar. Diz ele: "No mundo actual todas as ideias de felicidade acabam numa loja." E reflecte: "Os europeus defrontam-se com a chegada repentina de milhões de pessoas que, até há uns anos, tinham vidas muito parecidas com as nossas: trabalhos de qualidade, casas próprias, ambições profissionais… e, de repente, são refugiados que perderam tudo por causa da guerra. A sua presença em massa fez-nos conscientes de quão frágil, instável e temporária é a presumível segurança das nossas vidas. A emigração provoca-nos tanta ansiedade porque esse medo de perder tudo já estava aqui, latente, pela crescente precariedade da vida ocidental." E conclui: "Os políticos atiçam o medo do estrangeiro para ocultar a sua ineficácia face aos poderes globais."

Algo que tem que ver com a reflexão de Francis Fukuyama na Foreign Affairs: "A América está a viver uma decadência política. O sistema constitucional de pesos e balanças, combinado com a polarização e a ascensão de grupos de interesses bem financiados, combinou-se para criar o que eu chamo 'vetocracy', uma situação em que é mais fácil parar o Governo de fazer coisas do que usá-lo para promover o bem comum." No Le Monde Diplomatique, Serge Halimi escreve: "Ao longo dos anos, o Partido Democrático (EUA) tornou-se o instrumento das classes médias e superiores diplomadas. Individualista e paternalista (a recomendação de se esforçar mais), meritocrática (estudar mais), não oferece qualquer perspectiva à América 'periférica' que fica à margem da prosperidade das grandes metrópoles mundiais, das fortunas de Wall Street e de Silicon Valley." Para reflectir.


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