Daniel Gros
Daniel Gros 25 de junho de 2017 às 14:00

A força oculta da Zona Euro

Felizmente para a Zona Euro, entrará neste período de emprego elevado e crescimento lento numa base sólida - graças, em parte, a essa austeridade polémica. Em contrapartida, os EUA e o Japão enfrentam o pleno emprego com défices orçamentais superiores a 3% do PIB.

Durante anos, a Zona Euro foi considerada uma área de desastre, com discussões sobre o futuro da união monetária, muitas vezes centradas numa possível dissolução. Quando os britânicos votaram a favor da saída da União Europeia no ano passado, foram motivados em parte pela percepção da Zona Euro como um projecto disfuncional - e talvez irrecuperável. Contudo, nos últimos tempos, a Zona Euro tornou-se a queridinha dos mercados financeiros - e por uma boa razão.

 

A descoberta da força latente da Zona Euro já deveria ter acontecido. Na verdade, a Zona Euro tem vindo a recuperar da crise de 2011-2012 há vários anos. Numa base per capita, o seu crescimento económico ultrapassa agora o dos Estados Unidos. A taxa de desemprego também está em declínio – de forma mais lenta do que nos EUA, é certo, mas isso reflecte parcialmente uma divergência nas tendências da participação da força de trabalho.

 

Enquanto a participação da força de trabalho na Zona Euro está a subir, nos Estados Unidos tem vindo a diminuir desde cerca de 2000. A saída dos americanos do mercado de trabalho reflecte o que os economistas chamam de fenómeno do "trabalhador desencorajado". E, de facto, a tendência acelerou desde a recessão de 2009.

 

Em princípio, o declínio da participação da força de trabalho também deveria ser um problema na Zona Euro, dado o prolongado período de desemprego muito elevado que muitos trabalhadores europeus enfrentaram. Mas, nos últimos cinco anos, 2,5 milhões de pessoas na Zona Euro juntaram-se à força de trabalho, no mesmo período em que foram criados cinco milhões de empregos, reduzindo a descida global do desemprego a metade.

 

Além disso, a recuperação da Zona Euro foi sustentada, um tanto inesperadamente, mesmo na ausência de estímulos orçamentais contínuos. As discussões acaloradas sobre a austeridade dos últimos anos foram inadequadas, com críticos e partidários oficiais a sobrestimarem a quantidade de austeridade aplicada. O défice orçamental médio, ciclicamente ajustado, tem sido praticamente constante desde 2014, em torno de 1% do PIB.

 

Naturalmente, continuam a existir grandes diferenças na posição orçamental de cada um dos Estados-membros. Mas isso é natural numa união monetária tão diversificada. A verdade é que mesmo França, muitas vezes considerada como tendo um desempenho fraco, tem níveis de défice e dívida comparáveis aos dos EUA.

 

Uma comparação com os EUA, bem como com o Japão, também contraria a percepção comum de que as regras orçamentais da Zona Euro, incluindo o famoso (e infame) Pacto de Estabilidade e Crescimento e o "pacto orçamental" de 2012, foram irrelevantes. É verdade, nenhum país foi oficialmente repreendido por ter défices ou dívidas excessivas. Mas o clamor sobre a violação das regras ofuscou a ampla tendência subjacente em direcção a finanças públicas sólidas que as regras orçamentais promoveram. Tudo isso sugere que a "austeridade suave" perseguida em muitos países da Zona Euro pode ter sido, afinal, a escolha certa.

 

Naturalmente, não se deve sobrestimar a força económica a longo prazo da Zona Euro. Embora a taxa de crescimento médio possa permanecer acima de 2% nos próximos anos, à medida que os desempregados são absorvidos e que continue a tendência de reintegração dos desempregados de longo prazo no mercado de trabalho, a mão-de-obra não utilizada acabará por se esgotar.

 

Assim que a Zona Euro atinja o chamado "ponto de viragem de Lewis" - quando o excedente de mão-de-obra se esgota e os salários começam a aumentar - as taxas de crescimento cairão para um nível que reflicta melhor a dinâmica demográfica. E essas dinâmicas não são particularmente desejáveis: a população em idade activa na Zona Euro deverá diminuir cerca de meio ponto percentual por ano, pelo menos durante a próxima década.

 

Ainda assim, é improvável que a taxa de crescimento per capita da Zona Euro seja muito inferior à dos EUA, porque a diferença nas taxas de crescimento da produtividade é agora menor. Neste sentido, o futuro da Zona Euro pode parecer mais o presente do Japão, caracterizado por um crescimento anual de pouco mais de 1% e uma inflação teimosamente baixa, mas um crescimento do rendimento per capita semelhante ao dos EUA ou da Europa.

 

Felizmente para a Zona Euro, entrará neste período de emprego elevado e crescimento lento numa base sólida - graças, em parte, a essa austeridade polémica. Em contrapartida, os EUA e o Japão enfrentam o pleno emprego com défices orçamentais superiores a 3% do PIB - cerca de 2 a 3 pontos percentuais acima dos da Zona Euro. Os EUA e o Japão também têm níveis de dívida mais pesados: o índice dívida/PIB situa-se em 107% nos EUA e em mais de 200% no Japão, em comparação com 90% na Zona Euro.

 

Há evidências de que, na sequência de uma crise financeira, quando a política monetária se torna ineficaz - por exemplo, porque as taxas de juro nominais estão a zero - os défices orçamentais podem ter um impacto estabilizador excepcionalmente forte. Mas continua a haver uma questão chave não resolvida: com a normalização dos mercados financeiros, manter défices por muito tempo vai garantir estímulos contínuos?

 

O facto de a recuperação da Zona Euro estar a apanhar a dos EUA, apesar da ausência de qualquer estímulo contínuo, sugere que a resposta é negativa. De facto, a experiência da Zona Euro sugere que, embora estímulos orçamentais concertados possam fazer a diferença durante uma recessão aguda, retirar esses estímulos quando não são mais vitais é preferível do que mantê-los indefinidamente. Com austeridade - isto é, reduzindo o défice, assim que a recessão tenha terminado - a recuperação pode demorar mais para consolidar; mas assim que isso aconteça, o desempenho económico é ainda mais estável, porque as contas públicas estão numa posição sustentável.

 

John Maynard Keynes disse: "A longo prazo, estamos todos mortos". Isso pode ser verdade, numa linha de tempo suficientemente longa. Mas não é desculpa para dispensar considerações de longo prazo. De facto, para a Zona Euro, o longo prazo parece ter chegado - e a economia está viva e de boa saúde.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
Silva Há 3 semanas

- países que perderam mais de 20% do PIB
- milhões de trabalhadores que vivem abaixo do limiar de pobreza ( só na Alemanha sao 12,5 mio )
- regresso da pobreza que considerava já banida para sempre
- fim da classe média à vista
- o fim da esperança num futuro melhor
Poupem-nos com essa conversa