Fernando  Sobral
Fernando Sobral 28 de janeiro de 2018 às 20:23

A Fordlândia e a Autoeuropa 

A Autoeuropa não é a Fordlândia lusitana. Mas há quem, na sua incapacidade de vislumbrar os tempos actuais e os que se irão suceder, ficasse congelado no tempo.

Henry Ford tornou o automóvel um produto popular. Criou o conceito de linha de montagem. E também inventou uma cidade na Amazónia que se destinava a produzir borracha. O empreendimento amazónico foi um desastre desde o início: derrubou-se floresta para serem plantadas seringueiras. Os trabalhadores, muito deles caboclos, estavam habituados a trabalhar seguindo o ciclo do Sol e não através das regras americanas do relógio de ponto e dos turnos. Um dos momentos do desastre foi quando eclodiu a revolta "antiespinafre": os caboclos eram obrigados a comer espinafres todos os dias, mas queriam era peixe, feijão e farinha. Sob a ameaça de greve, a Ford recuou. Quando a borracha passou a ser comprada livremente no mercado asiático, a Fordlândia deixou de fazer sentido. E ali ficou, abandonada. A Autoeuropa não é a Fordlândia lusitana. Mas há quem, na sua incapacidade de vislumbrar os tempos actuais e os que se irão suceder, ficasse congelado no tempo.

 

Um caso exemplar é Arménio Carlos, o secretário-geral da CGTP, que por vezes vive numa Idade Média do pensamento. Em Dezembro, recorde-se, escreveu no Público uma prosa em que defendia que "é altura de o Governo português assegurar as condições necessárias junto da multinacional para que a Autoeuropa seja parte integrante desta nova fase da estratégia produtiva (de carros eléctricos) da VW". Tudo em nome do "bem dos trabalhadores, do emprego e da economia do país". É um sentimento comovente, mas irrelevante. Como dizia há dias António Chora, é preciso saber até onde se pode esticar a corda. E não se pode ir para umas negociações a defender os "interesses da família" para recusar um acordo, e depois atirar isso para debaixo da cama em troco de dinheiro. Isso fragiliza qualquer negociação. Mais: Arménio Carlos parece não se aperceber de que as fábricas de carros eléctricos vão requerer menos trabalhadores. Mesmo que eles sejam o futuro, onde ficará a Autoeuropa quando se optar por essa solução? É esse o debate que a CGTP poderia liderar. Mas não quer.

 

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