José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 27 de dezembro de 2017 às 19:15

A fuga do tempo

A mudança incessante que caracteriza o nosso tempo é talvez a principal alteração face à era que terminou com o advento da revolução informacional.

A FRASE...

 

"Os mais fortes de todos os guerreiros são estes dois - tempo e paciência."

 

Leo Tolstoy, Guerra e Paz, 1869

A ANÁLISE...

 

Ao contrário do que possa parecer, esta revolução não começou na passada década de 90, com a disseminação universal da internet, mas sim nos 40 do século XIX, com a introdução do telégrafo. Segundo li recentemente, a velocidade máxima de comunicação no tempo de Jesus era de uma milha/hora. Em 1800 passou para 1,25 milhas/hora: um crescimento de 13% por milénio. Com o telégrafo, a velocidade de transmissão de informação passou para 186 mil milhas/hora e o seu custo marginal caiu para (praticamente) zero. O aparecimento desta revolucionária tecnologia da informação abriu as portas à explosão da indústria dos media, que a rádio, a televisão e a internet só vieram intensificar.

 

Com todas as suas virtudes e vantagens, a revolução informacional que o telégrafo espoletou trouxe, contudo, um elemento de perturbação constante. Fenómenos locais e minoritários passaram a ter eco universal e os epifenómenos sociais passaram a ser tratados como a realidade, de que na verdade só são sintoma. A intensificação do fluxo informacional desencadeou um contínuo de reações e contrarreações que abalaram as referências seculares dos povos. A mudança tornou-se o elemento de maior constância das sociedades modernas.

 

Um político, um gestor ou um líder religioso que não prometa mudança não singra. Uma empresa cujos lucros não cresçam num trimestre transforma-se no alvo da ira dos investidores. Se a economia abranda ou se os mercados financeiros estremecem, logo surge um clamor por estímulos de política orçamental e monetária. Não há tolerância para os problemas, sendo que muitos problemas surgem da falta de tolerância. Ignora-se que o tempo traz solução para quase todos os problemas. Já não há paciência para deixar correr o tempo, que deixou de ser o veículo de transporte do presente - e da vida - para se transformar na unidade de medida da mudança.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

 

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