Francisco Veloso
Francisco Veloso 11 de junho de 2017 às 18:27

A "geringonça," o Reino Unido e a Europa

Theresa May e os conservadores, apesar de terem sido a força política mais votada, foram os grandes derrotados nas eleições de quinta-feira passada, tendo perdido a maioria parlamentar que detinham até então.

Pelo contrário, os trabalhistas, com uma extraordinária recuperação de assentos parlamentares, foram claramente vencedores. Mas porventura a grande vitória foi a da incerteza! Tornou-se incerta a posição que um novo governo de coligação entre os conservadores e o DUP terá relativamente ao Brexit, e existem grandes dúvidas sobre a sua capacidade para gerir esta negociação extremamente difícil com o resto da União Europeia. Igualmente incerta é a perspetiva que o governo irá defender relativamente a quase todas as questões internas pós-Brexit debatidas na campanha eleitoral, como sejam a imigração e os impostos. E, naturalmente, existe grande incerteza sobre a capacidade de a própria Theresa May se manter como primeira-ministra a médio prazo.

 

A incerteza política tem implicações económicas importantes a curto e médio prazo. Investigação recente sugere que existem impactos reais, desde logo aumentando a volatilidade e os prémios de risco, mas também provocando quebras no investimento, emprego e crescimento económico. E a magnitude dos impactos pode ser significativa. Por exemplo, os estudos sugerem declínios de investimento entre os 5% e os 20% associados a eleições com resultados incertos. O problema não é a mudança da esquerda para a direita, mas antes a incerteza sobre as políticas que irão ser adotadas, precisamente o que está em causa no Reino Unido. Ou seja, com esta nova incerteza, que se vem juntar à que já existia face ao Brexit, é natural que apareçam vários sinais económicos negativos ao longo dos próximo meses, o que irá criar pressão adicional sobre o governo.

 

Este impacto económico da incerteza sentiu-se em Portugal de forma significativa. Os agentes económicos reagiram com grande desconfiança à formação da "geringonça," e demorou um ano depois da sua formação para que estes agentes alterassem a sua perspetiva e dessem sinais claros ao nível da confiança e do investimento. A União Europeia, em particular a capacidade do Governo em cumprir as regras orçamentais europeias, e sair do Procedimento por Défice Excessivo, foi certamente um dos elementos decisivos para o estabelecimento da sua credibilidade em Portugal e no estrangeiro.

 

E, curiosamente, no Reino Unido, tal como em Portugal, é expectável que venha a ser a Europa o principal instrumento de credibilização (ou enfraquecimento) do novo Governo. A situação é particularmente irónica porque, se Theresa May estava à procura de legitimação política interna para poder melhor negociar a saída do Reino Unido da União Europeia, é muito provável que venha a ser precisamente o contrário. Face a notícias económicas domésticas que suspeito poderem vir a ser sombrias, a capacidade de Theresa May e do novo governo estabeleceram as bases para um acordo razoável com a União Europeia será porventura o seu principal instrumento de afirmação política (e económica) junto do eleitorado.

 

Nota: este é o último artigo que escrevo como diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics. Inicio este verão um novo desafio como "dean" da Imperial College Business School, em Londres. Estarei por isso mais atento e envolvido nas questões económicas inglesas. Neste sentido, o momento das eleições propiciou de forma particular o tema que encerra esta colaboração, que muito agradeço.

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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5640533 13.06.2017

Feiicidades.