Fernando  Sobral
Fernando Sobral 24 de agosto de 2017 às 19:35

A grande estratégia do medo

O terrorismo moderno, tal como o mais idealista que Joseph Conrad nos trouxe em "O Agente Secreto", deseja sobretudo acertar na alma do inimigo, fazendo com que o medo e o terror o leve à confusão e que passe a utilizar mal as suas forças.

O terrorismo actual é uma estratégia de características militares em que se pretende ganhar uma guerra através do medo e da confusão do adversário. Não é uma guerra clássica, com exércitos e Estados em confronto. É feita de meios pouco convencionais (aliados a outros mais esperados), como se tem visto em Barcelona ou em França. Quem recorre ao terrorismo sabe que não ganha uma guerra convencional. Os alvos são cada vez mais diferentes: antigamente supunha-se que os alvos dos terroristas seriam as comunicações, os arsenais, os dirigentes políticos e militares. Hoje são cidadãos anónimos. Os ataques destinam-se a causar o medo na população civil, a fazer tremer os pilares da sociedade civil que sustentam as democracias. É um outro estilo de espectáculo aterrador, tal como já tinha sido de alguma maneira o ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque. Os terroristas pretendem sobretudo utilizar o poder adversário e a sua força para o vencer. Derrotá-lo no mundo da comunicação e da percepção. O terrorismo é uma estratégia militar que deseja a mudança numa situação política causando sobretudo o medo. Em vez de causar danos materiais. O medo é a arma essencial de quem utiliza estas tácticas de terrorismo.

 

Ninguém duvida que estes terroristas (ligados ao Daesh) nunca conseguirão vencer o Ocidente. Mas podem moer as suas sociedades, torná-las mais radicais e xenófobas. A nova vaga do populismo cresce com o terrorismo e com as guerras nos limites do império ocidental que trazem refugiados de todos os tipos em busca da sobrevivência. E aqui coloca-se uma questão: entre a necessidade de derrotar o terrorismo e as formas legítimas e democráticas de o fazer qual é o caminho estreito onde se podem mover as democracias? Entre as medidas preventivas, dissuasoras e estruturais há muito espaço para limitar os direitos dos cidadãos em nome da segurança. Como manter esse equilíbrio. É aqui que joga o poder teatral dos ataques nas grandes cidades, com meios pouco habituais, contra multidões indefesas e incapazes de reagir a um perigo desconhecido. O Ocidente só perderá esta guerra se começar a cometer erros e centrar-se em guerrilhas internas é uma boa forma de isso ser possível. 

 

Os terroristas de hoje jogam com a lógica da resposta desproporcionada de quem tem o maior poder. O objectivo do Daesh é que o Ocidente responda sem tino a estas provocações. Atacando às cegas e causando dor nas sociedades onde consegue angaria simpatia. Pelo meio deste jogo ficam as atrocidades e os inocentes. A ideia é que o Ocidente se derrote a si próprio. A resposta deve ser pensada numa lógica desta terrível "sociedade do espectáculo" onde actua o terrorismo actual. O jogo é mais interessante. O terrorismo quer mudar os equilíbrios do poder político numa altura em que têm apenas algum poder militar. Por isso colocam aos Estados um desafio quase impossível: que estes demonstrem ser capazes de proteger os seus cidadãos da violência. E que para isso, baralhem as cartas políticas da estabilidade, e entrem numa vertigem alucinada e lhes forneçam um trunfo inesperado. O terrorismo joga com o impacto teatral da imagem: matar 14 pessoas em Barcelona vale mais do que liquidar 200 na Nigéria ou 500 no Iraque em termos do que os cidadãos ocidentais intuem. Ao considerarem que é impossível haver qualquer acto de violência política dentro das suas fronteiras, algo que é imanente ao Estado moderno, os países (especialmente os ocidentais) têm de actuar. E é esperando por passos errados que os terroristas anseiam. 

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mais votado Anónimo Há 4 semanas

Os terroristas anseiam por passos errados do Ocidente. Apostam no medo das suas sociedades. Mas com que finalidade? Se essas sociedades adoptarem formas de vida menos democráticas, ou mesmo ditatoriais, então é que fanáticos tipo Al Qaeda, Talibãs, DAESH, etc, desaparecerão de todo, pois deixa de existir "empecilhos" à pura e dura destruição.

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Anónimo Há 4 semanas

Os terroristas anseiam por passos errados do Ocidente. Apostam no medo das suas sociedades. Mas com que finalidade? Se essas sociedades adoptarem formas de vida menos democráticas, ou mesmo ditatoriais, então é que fanáticos tipo Al Qaeda, Talibãs, DAESH, etc, desaparecerão de todo, pois deixa de existir "empecilhos" à pura e dura destruição.