Fernando  Sobral
Fernando Sobral 11 de julho de 2017 às 00:01

A guerra do gás natural

O Qatar, dizendo não ao ultimato, respondeu anunciando que vai aumentar a sua produção de gás natural em cerca de 30%. Isto torná-lo-á o maior exportador mundial de LNG. 

Muito do conflito que estalou entre o Qatar e os seus vizinhos (a começar pela Arábia Saudita) não tem nada que ver com o "terrorismo". Tem que ver com interesses na área da energia, em especial no futuro do petróleo e do gás natural. E, claro, com uma lógica de contra-revolução que se seguiu após a Primavera Árabe e que levou o general al-Sisi ao poder no Egipto, com a instalação de uma ditadura militar no país. E, mais recentemente, à tentativa de golpe de Estado na Turquia e à asfixia do Qatar. Silenciar o Qatar (e, de preferência, anexá-lo) é o passo final dessa estratégia. Mas tudo acaba por se refundir na questão energética, que tem também que ver com a colocação em bolsa de parte do capital da Saudi-Aramco e do défice descomunal das contas públicas de Riade. No meio de tudo isto a posição dos EUA continua a ser uma incógnita, entre os seus interesses energéticos, a saga contra o Irão e o apoio a regimes que têm tudo menos de democrático, como o saudita.

 

O Qatar, dizendo não ao ultimato, respondeu anunciando que vai aumentar a sua produção de gás natural em cerca de 30%. Isto torná-lo-á o maior exportador mundial de LNG. A decisão colocará também sob intensa pressão projectos na área do LNG que têm custos muito superiores aos do Qatar. Ao mesmo tempo esta decisão do Qatar coloca a produção de LNG norte-americano (mais cara) também sob pressão, tal como a de outros países (como a Rússia e Irão) e da própria bacia do Mediterrâneo. Outro grande produtor é a Austrália, cujas exportações vão para um dos mercados mais fortes, a Ásia (para onde vai dois terços das exportações do Qatar). Os EUA planeiam ser o terceiro maior exportador de LNG em 2020, mas grande parte da sua extracção só é competitiva com o barril de petróleo a custar entre 60 e 70 dólares.

 

No meio de tudo isto a pressão da Arábia Saudita e dos EAU depara-se com a contenção das grandes empresas de petróleo (Shell, Total e ExxonMobil) que estão muito envolvidas na extracção no Qatar, já que o gás natural parece ser o mais óbvio vencedor no campo da energia nos próximos 25 anos. Ou seja, com o preço do petróleo a decair, são as nações com gás natural que mais têm a ganhar. E as com petróleo as que mais perderão (e este tem um papel determinante no orçamento estatal da Arábia Saudita e dos EAU). Muito do conflito entre o Qatar e os seus vizinhos (que não conseguiram o apoio do Kuwait e de Omã) situa-se aqui. E na ligação do Qatar ao Irão, pelos seus interesses conjuntos no campo norte de LNG que partilham.

 

A longa muralha que separa China e Índia

 

No meio da reunião do G20, onde estiveram presentes Xi Jinping e Narendra Modi, ficou esquecido um diferendo que nunca parece ficar resolvido: o das fronteiras e zonas de influência que separam os dois países na longa zona fronteiriça da Ásia. E que, ao longo de décadas, já conduziu a diversos conflitos militares, de diferentes envergaduras. A tensão voltou a agudizar-se por causa do Sikkim, o pequeno estado indiano que tem fronteira com o Nepal, o Butão e a China. Nas últimas semanas, a imprensa oficial chinesa tem pedido a "independência" do Sikkim, no meio de mais uma crise de fronteiras entre os dois países. No passado, todos os conflitos têm sido resolvidos através da diplomacia. E essa posição tem sido seguida pela Índia nesta recente crise, prova que continua a apostar na forma diplomática para tentar resolver o conflito latente.

 

A China tem colocado em causa, há muito, o exacto local da zona fronteira entre a Índia, a China e o Butão. Tudo derivado de razões históricas e da Convenção Anglo-Chinesa de 1890. Quando, em Junho, tropas chinesas tentaram aumentar uma estrada de fronteira em Doko La, o exército do Butão entrou em conflito com elas. Quando o exército indiano chegou ao local, os chineses já tinham feito recuar as forças do Butão. A Índia tem relações muito especiais com o Butão, treinando as suas tropas e fazendo patrulhas conjuntas com o seu exército. A China deseja que a Índia retire os seus militares do Butão, algo que Nova Deli dificilmente fará. Até porque não permitirá que o Butão seja "atropelado" numa escalada de influência chinesa na zona. A China contra-atacou e o Global Times pediu aos cidadãos chineses que criassem um movimento pró-independência no Sikkim, criticando a "brutal anexação" do estado pela Índia. O clima tende a continuar tenso.

 

Chipre: acordo não alcançado

 

António Guterres, o secretário-geral da ONU, bem se esforçou mas não foi possível conseguir um acordo sobre Chipre entre as duas comunidades divididas há décadas. O acordo era esperado, e a ONU tinha mesmo reservado o dia 10 para a assinatura, mas mais uma vez as partes desentenderam-se e isso estendeu-se às posições da Turquia e da Grécia. O ministro dos Negócios Estrangeiros grego criticou a Turquia por "ingerência" nas negociações e Ancara ripostou, dizendo que esteve presente com vista a conseguir um acordo sustentável para Chipre. Resta saber se a curto prazo será possível um novo encontro entre os dois lados da ilha dividida.

 

Síria: cessar-fogo começa

 

O acordo firmado por Donald Trump e Vladimir Putin na reunião do G20 e que previa o início de um cessar-fogo no Sul da Síria começou a ser implementado no dia 9. É mais uma tentativa para delimitar a guerra civil que dura há seis anos no país. O acordo, a que se associa a Jordânia, prevê uma pausa nos confrontos entre o exército sírio e os grupos rebeldes que actuam naquela zona.

 

Macau: receitas sobem

A receita bruta dos casinos de Macau aumentou 25,9% em Junho para 19.994 milhões de patacas (2.499 milhões de dólares), assinalando o 11.º mês consecutivo de aumento. A receita bruta dos jogos de fortuna e azar recomeçou a subir em termos homólogos em Agosto de 2016, mês em que cresceu 1,1% para 18.836 milhões de patacas, depois de uma série ininterrupta de 26 meses de queda iniciada em Junho de 2014. A receita bruta acumulada de Janeiro a Junho atingiu 126.377 milhões de patacas (15.797 milhões de dólares), número que representou um aumento de 17,2% relativamente ao valor contabilizado no período homólogo de 2016, com 107.787 milhões de patacas. 

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