Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 11 de julho de 2017 às 20:00

A guerra dos sexos

Felizmente há quem não tenha desistido de perceber quais são, de facto, as diferenças entre o cérebro de uma mulher e de um homem.

O que há umas décadas era um tema de investigação relativamente tranquilo tornou-se nos últimos anos um barril de pólvora. Numa guerra com muito mais de ideológico do que científico, com troca de insultos e manipulação dos estudos entre as duas grandes barricadas desta nova batalha: de um lado, os que dão a vida pela certeza de que os nossos miolos predeterminam os nossos comportamentos femininos ou masculinos e, do outro, os que se esganiçam para provar que todas as diferenças de comportamento entre sexos são exclusivamente adquiridas, consequência do azul para ele, e rosa para elas que, consciente ou inconscientemente, impomos a cada novo bebé no planeta.

 

A maior parte de nós encolhe os ombros perante este extremar de posições, e vai dizendo baixinho, porque o politicamente incorreto custa demasiado caro, que a verdade estará algures no meio. Não temos dúvidas de que muitos dos comportamentos supostamente femininos ou masculinos são resultado de uma lavagem ao cérebro precoce, que se mantém pela vida fora, muitas vezes com a força das coisas que persistem porque as presumimos "naturais", mas também não nos faz qualquer sentido que a existência de dois géneros se mantivesse ao longo de milhões de anos se não servisse uma função importante. Ou que a nossa biologia seja um detalhe, defendendo, isso sim, que essas (poucas) diferenças não justifiquem, de que forma for, qualquer tipo de discriminação.

 

 A discussão volta de novo ao rubro, com a apresentação de um novo estudo às diferenças entre o cérebro dos homens e das mulheres, que os autores garantem ser o maior até hoje. Posto à disposição dos interessados ainda na sua forma de pré-publicação, foi noticiada por Jesse Singal, da New York Magazine. Liderado pelo psicólogo Stuart Ritchie, da Universidade de Edimburgo, 18 investigadores analisaram a informação recolhida a partir da imagiologia ao cérebro de mais de cinco mil pessoas, com idades entre os 40 e 70 anos. Os resultados permitem evidenciar , escreve Singal, "que sim, aparentemente há muitas diferenças entre o cérebro masculino e feminino, mas também toneladas de coisas em comum." Logo para começar, os homens têm cérebros maiores, mais densos, com mais matéria branca, e diferenças nas estruturas individuais. Os cientistas anteciparam o "Ah, mas isso não vale, porque os homens são maiores", explicando que mesmo depois de todos os "descontos", algumas regiões mantêm a diferença, nomeadamente a amígdala (região central à experiência das emoções). Mas, perguntou Singal a Ritchie, "será que devíamos desvalorizar o tamanho?", porque, afinal, das duas, uma, ou o tamanho importa em termos funcionais, ou não. "Não temos a certeza" foi a resposta.

 

A idade do universo estudado torna complicado distinguir diferenças inatas das adquiridas, porque os cérebros são plásticos, e moldam-se com a experiência e o treino, mas as muitas interrogações não devem desencorajar estes estudos, escreve o New York Magazine, a bem do futuro tratamento das doenças que comprovadamente atingem mais um sexo do que o outro, como as do espectro do autismo, certas perturbações psiquiátricas ou as desordens neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer." Decididamente, para quem sofre delas o que está em causa é muito mais importante do que a guerra de sexos.

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Ciifrão 12.07.2017

Os comportamentos das pessoas são, maioritariamente, determinados por hormonas e, obviamente, homens e mulheres são diferentes. Quem mais capacidades não se pode saber, varia muito de acordo com as situações.

Anónimo 12.07.2017

A desistência tem que ver com o seguinte: já se percebeu que um tem cérebro e o outro não...