Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de janeiro de 2017 às 00:01

A guerra dos tronos e a geringonça

Nos conflitos de interesses políticos e económicos resultam muitos jogos de soma zero, onde um ou outro ganham, mas também perdem em medida igual. E há claro, quem perca quase tudo: é o que está a acontecer ao PSD.

A teoria dos jogos permite analisar a racionalidade das estratégias políticas. Em princípio, qualquer que seja o assunto, a opção mais vantajosa para qualquer jogador consiste em participar em jogos de soma positiva, com o qual os participantes melhoram conjuntamente as posições iniciais. Os acordos de comércio livre exemplificam este tipo de jogo. Na área política, PS, PCP e BE estabeleceram um jogo de soma positiva, ainda mais valioso porque removeram PSD e CDS da área governativa. O PS voltou ao Governo. O PCP conseguiu manter e reforçar as suas posições em sectores vitais como o dos sindicatos de transportes e do sector educativo, sustentando o seu poder autárquico e podendo clamar vitórias no regresso de direitos e salários pilhados pelo anterior executivo com a troika. O BE também pode referir vitórias no reembolso de salários e pensões, e tendo um sector autárquico e sindical insignificante, sentiu o apelo do aparelho de Estado, onde tem agora assento de forma mais concreta. Ou seja, tornou-se também um parido de poder. Todos ganham.

 

É certo que nos conflitos de interesses políticos e económicos resultam muitos jogos de soma zero, onde um ou outro ganham, mas também perdem em medida igual. E há claro, quem perca quase tudo: é o que está a acontecer ao PSD, que não soube insuflar vida nova (como fez inteligentemente Paulo Portas no CDS) antes preferindo continuar a martelar no mesmo prego, como se o mundo não tivesse mudado num ano. O certo é que, contra todas as previsões, a chamada "geringonça" manteve-se. E, exceptuando riscos externos (como uma implosão da UE, a vitória de Marine Le Pen em França ou o aumento da taxa de inflação na Alemanha, que poderá ter consequências devastadoras sobre os juros da dívida portuguesa e a possibilidade de incapacidade de acesso ao financiamento nos mercados), a situação deverá manter-se até ao OE de 2018 e às autárquicas. Esse será o momento do Rubião. Ou como dizia Cersei Lannister em "A Guerra dos Tronos": "Eu escolho a violência." É aí que este jogo de soma positiva pode descambar, porque os seus jogadores pouco terão a ganhar com ele. Isso terá de coincidir com a alteração de liderança no PSD que Marcelo Rebelo de Sousa espera para que um rearranjo do puzzle político no poder seja possível. Todos sabem que daqui a um ano será difícil continuar a manter uma política distributiva aliada aos condicionalismos europeus da dívida e do défice. E com juros de dívida cada vez mais impossíveis de pagar. Tudo num quadro de crescimento económico medíocre e falta de investimento público (para se poder manter o défice imposto pela Europa) e privado.

 

É aí que a "geringonça" poderá soçobrar. Mas isso não é nada que não seja previsto pelo mais pragmático e intuitivo político no activo, António Costa. Ele sabe os limites da "entente cordiale" com Belém e as fronteiras do jogo com os partidos que à esquerda o apoiam no Parlamento. É uma travessa feita de equilibrismos vários no trapézio, que um dia não terá rede por baixo. Mas esse é o desafio que daqui a meses se começará a colocar aos principais partidos. E aqueles que aspiram vir um dia a chegar ao poder, como o BE.

 

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comentários mais recentes
Jose 08.01.2017

Este Sobral é um adiantado mental, que é como quem diz, um idiota útil aos kamaradas. Diz que sim, e o contrário. Vê o perigo, mas a Geringonça está bem. A culpa, está claro, é da inflação alemã. Vais levar em grande, e o CM até te vai despedir, pois o Negócios vende 2 mil por dia. É muito pouco.

5640533 08.01.2017

nunca vamos perdoar a Passos Coelho o "ir além da troika".

Anónimo 06.01.2017

MR.Tuga está enganado quem criou a geringonça foi Paulo Portas primeiro pela sua irreversibilidade depois pela sua saída de cena... e essa da derrota estrondosa dever ser imaginação... quase como dizer que Donald Trump teve uma derrota estrondosa em votos expressos... o que é que isso interessa...

Anónimo 06.01.2017

EXCELENTE ARTIGO! SOBRAL DIZ TUDO E ATÉ O MAIS BURRO ENTENDE-MENOS PASSOS- MAS ESSE NÃO É BURRO ESSE É UM DESCLASSIFICAFO QUE SÓ PENSA EM ROUBAR E MESMO TENDO ENVIADO MILHARES DE PESSOAS PARA A MISÉRIA CONTINUA A BATER NA MESMA TECLA.PASSOS É A ANTÍTESE DO VERDADEIRO POLÍTICO COM ELE É SÓ MISÉRIA!!!

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