Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 08 de fevereiro de 2017 às 00:01

A importância de jogar para a claque 

Depois de ser acusado de andar desaparecido em combate, Passos Coelho é agora culpado de excesso de combatividade.

Antes era criticado pela apatia, hoje é-o pela agressiva indisponibilidade do PSD para chegar a compromissos com o PS. O problema, diz-se, não é só o de a nova atitude de Passos ser "irresponsável"; é também o de ela ser politicamente estéril, porque, servindo para animar as claques, nada faz pela conquista de novo eleitorado.

 

O risco é evidente: apesar de, como aqui escrevi na semana passada, não caber à oposição salvar o Governo de si próprio, há o perigo de a direita parecer presa ao trauma da vitória roubada, obcecada com a queda rápida do Governo e incapaz de actualizar o seu programa para lá do quadro mental do resgate (neste aspecto, o CDS adaptou-se melhor e mais cedo do que o PSD).

 

No entanto, não se deve desvalorizar a importância de o PSD e o CDS estimularem as suas bases eleitorais. É certo que não regressarão ao poder se não crescerem para lá do resultado de 2015 (por isso a separação de destinos e estratégias faz sentido, pelo menos enquanto não há eleições à vista). Mas olhemos bem para esse resultado. Depois de aplicar um programa excepcionalmente impopular, a coligação PSD-CDS ficou em primeiro lugar e, com cerca de 38% dos votos, elegeu 107 deputados. Ou seja, com apenas mais nove mandatos teria maioria absoluta - e com mais oito ficaria a salvo da moção de rejeição que derrubou o seu governo. Com a habitual distribuição por círculos, talvez bastassem mais 2% ou 3% de votos no todo nacional. Não era um cenário implausível: muitas sondagens davam a coligação acima dos 40%.

 

As eleições de 2015 mostram que é muito difícil impedir o PSD e o CDS de, juntos, serem a força mais votada. Por causa do método de Hondt (que favorece as coligações) e da sociologia eleitoral (a direita tem mais força em mais distritos com mais peso). Mesmo na sequência do "governo da troika", o PSD e o CDS só perderam para o PS, em número de deputados, em três círculos (Açores, Faro e Setúbal). Venceram em todo o território acima do Tejo e em muitos distritos importantes - Aveiro, Leiria, Viana do Castelo, Viseu - obtiveram o dobro dos mandatos dos socialistas. Foi isso que António Costa percebeu: se não se entendesse com a esquerda, o PS ficaria para sempre condenado a ser muleta da direita.

 

Depois de "surpresas" como a vitória de Trump em 2016 ou a maioria absoluta de David Cameron em 2015 (hipóteses que as sondagens afastavam), já era tempo de percebermos que os resultados eleitorais são seriamente influenciados pelos enviesamentos naturais dos sistemas. Uma coisa é o "voto popular"; outra são as regras de transformação do "voto popular" em mandatos, regras essas que nem sempre beneficiam todos de igual forma.

 

A erosão do voto em partidos de governo é sempre determinada por dois movimentos: a fuga do eleitorado flutuante para a oposição e a fuga de algum eleitorado próprio, desiludido, para a abstenção. Foi o que aconteceu à direita em 2015. Ora, se virmos os votos que então lhe faltaram para atingir a maioria, perceberemos a importância que agora pode ter uma estratégia de confrontação irredutível com o Governo, se servir pelo menos para prender os fiéis e fazer regressar da abstenção os desiludidos. Os ganhos serão marginais, mas esses ganhos marginais podem ser decisivos.

 

Talvez não seja dessa estratégia que o país mais precisa, nem é por aí que a direita crescerá extraordinariamente. Mas, em si mesma, ela não é politicamente absurda.

 

Advogado

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado surpreso Há 2 semanas

"A importância de se chamar Passos Coelho..."

comentários mais recentes
carlos.moreira.904750 Há 2 semanas

Pedro Passos Coelho não tem nada de que se envergonhar. Enquanto Primeiro Ministro e embora com pouca experiência de execução política ( nunca tinha sido Ministro ) teve de administrar condicionado a uma exigência de Administração imposta e ngociada por outro Partido e com uma Banca cheia de fraquezas e "vícios de ingerência" quando não de casos de polícia como se veio e está a verificar até pelo "resgate" da CGD. Mesmo em condições adversas ainda conseguiu ganhar as eleições legislativas. .. Caso raro não enriqueceu com a Política e até se mantem no Partido e no Parlamento dando a cara e a personalidade sem ser "um animal feroz" da política. Teremos em breve razões para que o Povo subscreva em mais votos um novo desafio. Espero que este interregno de tempo na Oposição, lhe permita preparar as REFORMAS que os Portugueses precisam com a competência necessária. O tal "colapso" que Portugal enfrenta só não se deu ainda porque o Banco Central Europeu tem ajudado e muito os juros

surpreso Há 2 semanas

"A importância de se chamar Passos Coelho..."