João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 08 de junho de 2017 às 20:15

A imprevisibilidade das eleições

Uma das principais características do comportamento humano é a sua heterogeneidade, e a forma como resiste a generalizações ou classificações simplistas.

Comecemos pelo princípio. Gostos não se discutem como diz o adágio popular. As preferências das pessoas são mesmo diferentes. Há quem goste de férias de praia e quem prefira as de montanha. Com amigos ou solitárias, ou ainda para conhecer pessoas novas.

 

De seguida temos as várias condicionantes do comportamento humano. Desde o rendimento disponível até ao contexto em que ocorre. As pessoas podem ir à praia ou à serra, dormindo na sua residência habitual, porque não têm dinheiro disponível para outra solução. Mas o comportamento das pessoas é influenciado por muitos outros elementos de contexto, desde as conversas em casa ou com os amigos ou um programa que viram na televisão. O que faz com que mesmo pessoas que tenham gostos semelhantes possam acabar por se comportar de modo diferente.

 

O comportamento humano tem assim certos elementos comuns, mas quando se trata de um comportamento concreto, a imprevisibilidade e os efeitos de contexto, podem dominar.

 

Na esfera política os últimos dois anos têm sido muito ricos em eventos eleitorais improváveis: o voto secreto é o reduto da imprevisibilidade do comportamento humano. A lista é longa, mas vale a pena relembrar as eleições mais marcantes: nos EUA Donald Trump venceu as eleições presidenciais; no Reino Unido o referendo deu a vitória ao Brexit; em Espanha houve duas eleições legislativas, e as terceiras só foram evitadas por uma crise no PSOE, para Mariano Rajoy conseguir formar um governo; e em França Emmanuel Macron ganhou as eleições presidenciais, sendo um quase desconhecido poucos meses antes.

 

Muitos procuram uma causa comum para estas surpresas. Na imprensa é comum ver escrita a palavra "populismo" para falar dos candidatos que têm muitos votos e quando o autor do texto não simpatiza com esse candidato ou as suas ideias. E sim, o nativismo ou certas formas de nacionalismo, têm desempenhado um papel central em muitas das mais mediáticas batalhas eleitorais recentes. Muitos acreditam que é a posição individual sobre a imigração que explica o comportamento dos eleitores decisivos.

 

Mas o comportamento concreto dos principais atores políticos influenciou as decisões dos eleitores. O uso e abuso dos tweets por parte de Donald Trump trouxe-lhe, inesperadamente, votos adicionais nalguns estados chave. O uso do referendo como arma política por parte de David Cameron ajudou muitos britânicos a votarem contra a sua vontade. O "no es no" de Pedro Sanchez ajudou os eleitores, mesmo os do PSOE, a acreditarem que a viabilização de um governo do PP era a atitude mais responsável. E a moderação e juventude de Macron seduziu muitos franceses cansados de violência verbal no espaço público.

 

Em Portugal estamos ainda a processar a conversão do PS ao diálogo de governação com o PCP e o BE. E  à aparente crença do nosso Governo nos méritos de cumprir as metas orçamentais, estabilizar o sector financeiro e reduzir a dívida pública. A dúvida, porém, é se esta crença é genuína ou meramente pragmática e sujeita a mudanças no contexto.

 

Muitos julgam saber porque votaram os portugueses como votaram em 2015: contra os governantes austeros, ou a favor da continuação das políticas de ajustamento financeiro. E quase todos ficámos surpreendidos com a fórmula governativa (a mais à esquerda da democracia) e com o comportamento do governo em 2016 (o melhor défice da democracia). Será que há uma relação causal entre as duas frases? Em que direcção?

 

Na prática, porém, os resultados das próximas eleições legislativas em 2019 dependerão dos factores idiossincráticos que os eleitores vierem a considerar nessa altura. Onde a avaliação, naturalmente heterogénea, da qualidade da governação no período anterior desempenhará um papel central.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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xxx 09.06.2017

Rectificação: COSTA NÃO GANHOU AS ELEIÇÕES.
Ok?