João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 02 de janeiro de 2018 às 19:20

A instabilidade permanente no Irão 

Aumento do preço das cebolas, ovos e combustíveis, cortes de subsídios sociais, falência de caixas de crédito popular, disputas quanto ao financiamento de instituições religiosas e um austero orçamento agravado pelos custos das intervenções militares no estrangeiro suscitam uma vaga de protestos no Irão.

Ao finar-se 2017, o general Qasem Soleimani, comandante dos Guardas Revolucionários, proclamou vitória contra o Estado Islâmico nas campanhas da Síria e Iraque, o Presidente Hassan Rouhani anunciou outro orçamento austero, os seus rivais conservadores incentivaram manifestações antigovernamentais e o Irão mergulhou numa nova ronda de confrontos entre facções do poder acicatadas pela revolta nas ruas.

 

Os protestos alastraram na sequência de uma manifestação na passada quinta-feira contra a alta de preços e a corrupção governamental em Mashad, praça-forte de Ebrahim Raisi, com o beneplácito de seu sogro e grande imã, Ahmad Alamolhoda, e de clérigos conservadores.

 

O desafio lançado a Rouhani, na segunda maior cidade do país, pelo seu rival na eleição presidencial de Maio último extravasou de imediato para actos de contestação ao Governo e inclusivamente ao regime em grande número de centros urbanos do Cáspio às montanhas do Curdistão iraniano, congregando persas e minorias como azeris, curdos, árabes, baluchi, turcomenos.

 

A dimensão e a virulência das manifestações, mobilizando sobretudo jovens, desempregados e camadas de baixos rendimentos, estão aquém do movimento maioritariamente burguês e urbano de 2009 contra a fraude que propiciou a reeleição presidencial de Mahmoud Ahmadinejad.

 

Uma crise de legitimidade pela ruptura com a tradição revolucionária de respeito pelo mandato por via eleitoral, subordinado à tutela clerical, opôs, então, centros de poder representados pelo Líder Supremo, Ali Khamenei - sucessor de Khomeini em 1989 - e Ali Rafsanjani - Presidente entre 1989 e 1997- chefe máximo dos Conselhos de Especialistas e de Discernimento, entidades mediadoras de disputas legislativas.

 

Rouhani surge agora numa posição similar à do seu antecessor Mohamad Khatami, entre 1997 e 2005, nas disputas entre centros de poder em que o Líder Supremo para fazer jus ao título tem de conquistar o apoio do Conselho de Especialistas e do Conselho de Guardiães, que zela pela conformidade da legislação e pessoal político, além de garantir a lealdade das Forças Armadas, Guardas da Revolução e principais fundações religiosas.

 

A intervenção ameaçadora de Khamenei em contraste com declarações conciliadoras e apaziguadoras de Rouhani reproduz o padrão de confronto institucional típico da República Islâmica. 

 

O estatuto subordinado do Presidente, partidos do Parlamento, órgãos de administração local, instituições judiciais e para-estatais, como confrarias e institutos religiosos, obriga, por sua vez, estes agentes políticos a tentarem assegurar a maior adesão popular passível de se traduzir em apoios eleitorais para aumentar a capacidade de manobra e influência.        

 

Os conflitos institucionais e de legitimidade inerentes à República Islâmica propiciam actos de contestação fora das estruturas de enquadramento do regime e agudizam-se ante manifestações de rua.

 

Num aperto de conjuntura em que a oposição da administração Trump ao acordo nuclear de 2015 e o esforço militar na Síria e Iraque, além do apoio aos rebeldes houthi no Iémen, Hizballah libanês e Hamas de Gaza, inviabilizam investimento externo significativo, o dividendo do levantamento substancial de sanções revela-se diminuto.

 

Rouhani confronta-se com uma crise de expectativas apesar de contar com indicadores positivos como uma queda da inflação de 45% em 2013, quando assumiu a presidência, para cerca de 10% e uma recuperação económica que se saldou por um crescimento rondando 3% no ano findo.

 

O Orçamento 2018-2019 apresentado em Dezembro resigna-se, contudo, a mais cortes em subsídios, afectando directamente cerca de 30 milhões de iranianos, e baixo nível de investimento público, evitando cortes nas subvenções a instituições religiosas, independentemente de exercerem ou não funções de assistência social.

 

A expectativa de que o desemprego se mantenha na ordem dos 12% - 30% entre jovens - é desesperante num país onde mais de metade dos 80 milhões de habitantes tem menos de 35 anos.

 

A periclitante sustentabilidade de instituições de crédito dependentes de institutos religiosos e entidades como os Guardas Revolucionários - representando 1/4 do sistema bancário -, crédito malparado e insuficiência de reservas na banca tradicional obstam a reduções das taxas de juro fixadas em 18%.

 

Sem vislumbre de articulação ou liderança política é possível que os protestos se esgotem e sucumbam à repressão, acicatada por denúncias de incitamento saudita, norte-americano e israelita à rebelião, em particular junto das minorias azeris, árabes, curdas e baluchis.

 

A regra de compita e conflito permanente institucional no Irão permanecerá além desta crise e continuará a repercutir nos conflitos regionais e na disputa com Washington.

 

Jornalista

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
comentar
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
pub