Fernando  Sobral
Fernando Sobral 08 de fevereiro de 2017 às 19:25

A Lisboa das ciclovias

Em "Os Maias" de Eça de Queiroz, João da Ega é radical: "Lisboa é Portugal (…) Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!" Não está, mas Lisboa sempre abafou tudo à volta.

No tempo de Eça, a Lisboa onde estava concentrado o poder da política, da economia e da cultura, movia-se nas mesmas ruas. Chocavam uns com os outros e nem sempre saltava faísca. Nesse tempo, os cidadãos moravam no Rossio e no centro da cidade. Mais de um século depois tudo se transformou. Os turistas ocupam Lisboa. Os lisboetas tornaram-se um incómodo para quem define esta nova cidade. O turismo é, claro, um dos eixos fundamentais da nossa economia. Dá vida a uma cidade, oxigena as suas potencialidades. Mas está a cometer-se um erro: ao querer transformar-se Lisboa num postal ilustrado sedutor para os visitantes destrói-se a alma da cidade. Sem aquilo que a torna diferente de outras cidades, tornar-se-á um centro comercial. Igual a todos os outros.

 

A CML de Fernando Medina parece achar que o turismo justifica tudo. É muito bonito ter ciclovias por todo o lado, mas as que existem entre o Marquês de Pombal e Entrecampos são dispensáveis: chocam contra paragens de autocarros ou passam entre o local onde estes param e aquele onde estão os passageiros. É muito bonito para quem não tem de apanhar transportes públicos e anda a pé. Para os lisboetas é um pavor. A questão não é haver mais bicicletas em Lisboa: são bem-vindas. O problema é tudo isso ser pensado em termos de imagem turística. Isto num momento em que os preços da habitação em Lisboa só são simpáticos para estrangeiros. E em que viver em Lisboa não é comportável para os cidadãos portugueses comuns. Uma cidade modelada em termos de interesses que não são os dos seus cidadãos acaba sempre por implodir. Mas essa não parece ser a preocupação de Fernando Medina. Lisboa continua sem ter direito a uma visão criativa que a transforme naquilo que deve ser: uma cidade cosmopolita mas agradável para viver, trabalhar e passear. Moderna, mas também típica.

 

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comentários mais recentes
Mr.Tuga 09.02.2017

MUITO BOM!
Já nem os tugas da classe media ALTA conseguem habitar os centros das cidades, que viraram um enorme HOTEL ou ALBERGUE de turistas!
Entretanto, os paises e cidades civilizados, estão a CORTAR NOS TURISTAS!!!!!!!!!
Tugalandia dos atrasados sempre ao contrario....