Fernando  Sobral
Fernando Sobral 15 de janeiro de 2018 às 19:32

A longa marcha de Emmanuel Macron

Os franceses salientaram a contínua relutância chinesa em abrir os seus mercados a empresas estrangeiras, uma contrapartida vista como desejável em Paris e na Europa.

A visita do Presidente Emmanuel Macron à China destinava-se, à primeira vista, a tentar fomentar as relações entre a Europa e o gigante asiático. Mas o seu discurso mostrou as duas faces da moeda: de um lado a gentileza e do outro as ameaças. Pelo meio, mais do que Macron tentar colocar-se como o porta-voz da Europa no diálogo com a China, estava a questão económica. Que nem a venda de mais de uma centena de Airbus à China dissipou. Macron insistiu que era necessária mais "colaboração" entre os dois mercados para se atingir alguma sintonia. Por fim percebeu-se que se avançou pouco. O ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, reafirmou que Paris continuaria a escrutinar os investimentos chineses, numa tentativa de proteger o sector tecnológico de França, um alvo muito cobiçado pelas empresas chinesas. Por outro lado os franceses salientaram a contínua relutância chinesa em abrir os seus mercados a empresas estrangeiras, uma contrapartida vista como desejável em Paris e na Europa. França também quer proteger os seus "sectores estratégicos", apontando a força como Pequim também protege as áreas que considera de "segurança estratégica".

 

Macron também fez reparos à "Belt and Road" da China, que visa conectar o Sudeste Asiático à Europa e à África através de uma série de infra-estruturas marítimas e terrestres que visam fomentar o comércio multilateral. Na Europa, muitos países (os maiores) temem as intenções chinesas, enquanto os mais pequenos estados desejam os investimentos da China. Macron aproveitou para lembrar Pequim que a antiga Rota da Seda era uma linha de comércio sino-europeia e não apenas chinesa. Assim a relação comercial nos nossos dias deve ter uma base de reciprocidade igual. Mais, fazendo eco do que pensa a Europa, Macron referiu que as rotas de comércio devem ter em conta padrões internacionais de financiamento, protecção ambiental, condições de trabalho e outros procedimentos. E o problema é que a Europa e a China têm lógicas diferentes relativamente a estes temas. Em muitas capitais europeias teme-se, também, que a China, através do poder económico, esteja a conseguir uma nova forma de hegemonia (uma versão moderna do antigo sistema tributário chinês, onde a dívida de um Estado permite um poder diplomático maior do que empresta) num mundo onde os EUA estão a retirar-se como "polícia global" e a Europa quer ter uma palavra a dizer. Ou seja, a questão económica é apenas uma das vertentes das diferenças entre Pequim e Bruxelas. Isto apesar de os investimentos chineses estarem a ser recebidos de braços abertos em países da Europa Central e do Leste. As diferenças estão em cima da mesa. E nem Paris ou Pequim as negaram. Cada um parece conhecer o jogo do outro. Resta saber se se conseguirá atingir um consenso.

 

Turquia: o fim do sonho europeu?

 

Nos primeiros dias de Janeiro, o Presidente francês Emmanuel Macron, cada vez mais activo na política internacional face ao "apagamento" de Angela Merkel (a braços com a tentativa de formar um novo Governo), pareceu ter terminado a política de enganos entre a Europa e a Turquia. Ou seja, afastou as perspectivas de que estejam a haver avanços na candidatura da Turquia para fazer parte da União Europeia. Macron, diante de Tayypp Erdogan, que se deslocara a Paris, propôs uma relação que não seja a integração, mas que ligue os turcos à Europa. Mas isso foi o que, há uma década, Angela Merkel e Nicholas Sarkozy disseram. Se na altura a Turquia reagiu fortemente, agora Erdogan foi sintético: os turcos não vão "implorar" para pertencerem à União Europeia. Erdogan, claramente, não gostou das palavras claras de Macron. Parece ser cada vez mais claro que, no eixo Paris-Berlim, se deseja que a Turquia seja um parceiro nas áreas comerciais e da defesa, mas que isso não inclui a pertença à UE.

 

Não deixa de ser interessante que tudo isto acontece quando as pedras do xadrez se movem entre a Europa, a Ásia e o Médio Oriente. É cada vez mais claro, que por razões tácticas, a Turquia se está a aliar à Rússia e ao Irão no contexto do Médio Oriente. E gostaria de ser uma potência entre o mundo árabe e a Ásia Central. Por outro lado, as relações da Turquia com os EUA estão cada vez mais frias, apesar de Ancara fazer parte da NATO. A condenação do executivo do Halkbank, Hakan Atilla, por não ter cumprido as sanções dos EUA face ao Irão, abriu nova brecha nas relações entre Ancara e Washington. A isso junta-se a presença do clérigo Gullen em território americano e as divergências sobre a apoio do exército dos EUA ao ramo sírio dos curdos do PKK turco. Se se juntar a isso o reconhecimento por parte dos EUA de Jerusalém como capital de Israel, percebe-se melhor o contexto minado em que se move a relação da Turquia com o Ocidente. Onde é uma potência militar dentro da NATO.

 

Qatar: queixa contra EAU

 

O Qatar apresentou uma queixa na ONU contra uma alegada violação do seu espaço aéreo em Dezembro por um avião militar dos Emirados Árabes Unidos. Os EAU são um dos quatro países árabes (com a Arábia Saudita, Bahrein e Egipto) que impuseram um boicote ao Qatar, acusando-o de "fomentar o terrorismo". Acusação que Doha nega.

 

China: empréstimos a Angola

 

A China concedeu a Angola empréstimos no valor de mais de 60 mil milhões de dólares desde que os dois países estabeleceram relações diplomáticas, a 12 de Janeiro de 1983, escreveu o embaixador da China em Angola, Cui Aimin, num artigo publicado no Jornal de Angola. Nele afirma: "Esse montante destinou-se à construção de inúmeras obras de infra-estruturas, como centrais de energia, estradas, pontes, hospitais e casas, incentivando o desenvolvimento económico e a melhoria da vida do povo de Angola." No artigo, em que recorda os 35 anos de relações bilaterais, Cui Aimin salienta que os resultados da cooperação pragmática são frutíferos, sendo a China o maior parceiro comercial de Angola, enquanto Angola é o maior fornecedor de petróleo da China em África. O embaixador recorda que no final de 2016 foi realizado em Luanda o Fórum de Investimento China-Angola, que resultou na celebração de 48 acordos de intenção de investimento, no valor total de 1.200 milhões de dólares.

 

EUA: superavit chinês

 

Donald Trump prometeu a "América Primeiro" aos seus eleitores. Mas os factos dizem tudo: os dados oficiais revelados na semana passada pela General Administration of Customs dos EUA mostram que o superavit chinês na balança comercial com os norte-americanos atingiu os 275,81 biliões de dólares no último ano. Ultrapassando o anterior recorde de 260,8 biliões em 2015. Trump prometeu medidas mais restritivas para as importações chinesas nos EUA, onde o comércio com a China se tornou um tema muito sensível. 

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar