Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de janeiro de 2017 às 19:28

A longa marcha de Xi Jinping

Em Davos, o discurso de Xi Jinping era o mais aguardado. Não desiludiu. Surgiu como o dirigente que defende a globalização económica face às tendências de proteccionismo.

O Presidente chinês Xi Jinping foi, este ano, a estrela mais brilhante do encontro de Davos. Num mundo muito inseguro e onde as tentações isolacionistas de Donald Trump parecem pôr em causa a globalização económica que balizou a ideologia hegemónica desde a década de 1980, Jinping veio mostrar que é a voz mais potente das trocas comerciais como ponte entre as nações e os povos. No seu discurso Jinping foi claro: "Ninguém sairá vitorioso de uma guerra comercial." A política das novas rotas da seda teve eco na edição especial do China Daily dedicado à visita do Presidente chinês à Suíça, que reforçou as posições do Império do Meio de oposição ao proteccionismo e de defesa de uma economia aberta. Xi Jinping referiu que as crises de refugiados do Médio Oriente e de África derivam das restrições à liberdade e ao desenvolvimento que o comércio traz. Para ele a crise de 2008 foi provocada pelo excesso de especulação financeira e não pela globalização. Mas disse que cada país deve continuar a ter a sua própria voz, e não deixou de evocar o problema do desemprego ligado ao progresso tecnológico, citando Charles Dickens: "É o melhor e o pior dos mundos." Tudo isto aconteceu no momento em que ainda se estão a tentar assimilar os efeitos da liderança de Donald Trump, ele que ameaçou aumentar as taxas sobre os produtos chineses importados.

 

O conceito da "nova rota da seda" pretendia, quando foi lançado em 2013, fazer reviver o antigo espírito das caravanas que ligavam a Ásia e a Europa até ao século XV. Mas já ultrapassou isso: a ideia é criar infra-estruturas que liguem a China à Europa, passando pela Ásia Central, mas integrando também a África, o Sudoeste Asiático e a Oceânia. Há um exemplo concreto recente: a criação de um corredor económico entre a China e o Paquistão. A China pretende com isto abrir mercados estrangeiros para as suas empresas e ao mesmo tempo reforçar o seu poder global como grande potência que é.  A ligação comercial da China à Europa aposta nas infra-estruturas, como a linha férrea que liga Chongqing a Duisburgo, na Alemanha, e que permite chegar depois a Madrid. A isso junta-se a compra do porto grego do Pireu pelo grupo chinês Cosco, que prevê torná-lo, a cinco anos, no principal centro de trânsito comercial do Mediterrâneo. A presença de Jinping em Davos apenas exponenciou esta estratégia.

 

China:  adeus ao criador do pinyin

 

A morte de Zhou Youguang terá passado despercebida à grande maioria dos europeus. Mas foi ele que fez uma das mais profundas revoluções na China no século XX. Foi graças a ele que Pequim se tornou Beijing ou que Mao Tsé-tung passou a ser designado como Mao Zedong. Zhou ficou conhecido como o "pai do pinyin", a versão romanizada do mandarim que foi adoptada pela China em 1958 e que tornou a sua linguagem mais acessível ao resto do mundo. E terá tido um papel determinante para aumentar a literacia na China, de 20% para 90% em menos de meio século. Foi uma revolução. Antes das Guerras do Ópio do século XIX a simplificação da linguagem na China seria impossível: o Império do Meio era uma grande potência e acreditava, como qualquer país poderoso, que os seus costumes e língua eram superiores a todos os outros.

Conta-se que no início da década de 1950, Mao pediu um conselho a Estaline: como poderia aumentar os níveis de literacia no país? Estaline terá dito que era importante substituir a fonética por um complexo sistema de caracteres, tal como a Rússia fizera com o alfabeto cirílico. Zhou, um economista que sabia esperanto (a língua que deveria ser global), foi o escolhido para a espinhosa tarefa.

Depois de três anos, o comité de que fazia parte Zhou substituiu milhares de símbolos chineses que passaram a ser representados pelos 26 caracteres do alfabeto romano, com acentos e marcas para diferenciar a pronúncia, o que tornou possível aos estrangeiros traduzir e falar mandarim sem ter de escrever a caligrafia chinesa. Nos últimos anos, Zhou tornou-se uma voz audível da oposição chinesa, sendo conhecidas as suas críticas à liderança chinesa, que conhecia como poucos. Faleceu com 111 anos.

 

China: novos munícipes

 

Dois quadros que trabalharam com o Presidente Xi Jinping quando ele governou a província de Zhejiang são os novos presidentes das Câmaras Municipais de Pequim e Xangai, as duas grandes cidades da China. Cai Qi, de 61 anos, foi eleito o novo presidente de Pequim, enquanto Ying Yong, de 59, foi eleito para dirigir Xangai. Foram eleitos na quinta sessão do 14.º Congresso Municipal do Povo. Jinping foi o governador de Zhejiang entre 2002 e 2007.

 

Turquia: Topkapi em perigo

 

Um dos maiores símbolos de Istambul, o palácio Topkapi, defronta o risco de poder colapsar, já que o chão sobre o qual está erigido está a deslizar para o mar. As autoridades turcas afirmaram que há o perigo de "liquidificação do chão" por baixo do conhecido palácio. No ano passado foram encontradas fissuras na sala de tesouros do palácio da era otomana, levando ao seu encerramento aos turistas. As fissuras, sabe-se agora, resultam do deslizamento de areias. O palácio de Topkapi foi uma das maiores residências dos sultões otomanos durante cerca de 400 anos, até 1856. É agora um museu para turistas.

 

Macau: BNU em Hengquin

 

O BNU inaugurou na semana passada uma agência na ilha de Hengqin, município de Zhuhai, facto que representa um passo inovador no fortalecimento da cooperação económica entre Macau e Guangdong, segundo Pedro Cardoso, presidente da comissão executiva do banco. O BNU é o primeiro banco de Macau a abrir uma agência na China continental, sendo também o primeiro banco autorizado a realizar negócios em renminbis e o representante do primeiro grupo bancário internacional a abrir uma agência na Zona de Comércio Livre de Hengqin. O BNU, que vai assinalar o seu 115.º aniversário, faz parte da CGD.

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