Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 20 de abril de 2017 às 20:21

A melhor coisa que aconteceu ao jornalismo

A melhor coisa que desde há muito tempo aconteceu ao jornalismo foram as "fake news". Num ambiente de pós-verdade, notícias falsas, novidades constantes e vigilância em massa, a notícia credível, a história correcta, a narrativa imparcial, tende a ter uma procura crescente.

A questão é esta: estarão os cidadãos comuns, o profissional de agenda cheia, o empresário que todos os dias arrisca, disponíveis para pagar por notícias factuais, imparciais e atempadas?

 

O gigante Google acabou de lançar o "Fact Check", um mecanismo para verificar os factos das histórias publicadas no seu site de notícias. Na Noruega, os jornais Dagbladet e VG e a estação pública de rádio e televisão NRK juntaram-se no "faktisk.no", um site para provar os factos. Em França, foi lançado o CrossCheck, um projecto jornalístico de colaboração para combater as notícias falsas. As iniciativas do género multiplicam-se, mas pode ser um caminho errado.

 

As "fake news" são parte de um novo ambiente, onde a atenção humana é o activo mais escasso. Os jovens que a partir da Macedónia criaram milhares de notícias falsas não tinham agenda política. Tinham uma agenda de negócio: gerar pólos de atenção e ganhar dinheiro com isso. A ética e a responsabilidade civil e criminal estão aqui, evidentemente, em causa. Mas não apenas aí. No ambiente digital, a comunicação, a informação e os media assentam inevitável e essencialmente em questões éticas. Aliás, é esse o desafio mais fundo da sociedade da informação: que imagens, que sons, que histórias, que mundo?

 

O ambiente mediático, e não apenas jornalístico, é intensamente competitivo e a pressão para publicar, divulgar e ser o primeiro leva a regulares atropelos da ética e da sã convivência entre as pessoas. Mas ao contrário do que refere Charlie Beckett, director do Polis, centro de investigação em jornalismo e sociedade da LSE, hoje os media, para efeitos práticos, são a realidade e as "fake news" talvez não sejam propriamente um problema. Beckett (do seu blogue vem o título acima), entre outros investigadores, suspeitam aliás que nem a regulação nem a melhoria geral da literacia digital acabarão com as "fake news".

 

A velha ideia de solução, fruto de uma tradição de séculos de pensamento linear, pode não ser a melhor abordagem. Um novo modelo de negócio para o jornalismo de referência pode ser um caminho mais interessante. Um modelo de negócio assente na credibilidade e no valor da informação factual, sistematicamente correcta e atempada. Num mundo de histórias mal contadas, de "fake news" e de surpresas constantes, pode bem ser um produto de sucesso.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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