Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 23 de maio de 2017 às 20:43

A melhor estratégia para a oposição é regressar à normalidade

Para muitos analistas, os números do crescimento económico e a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo deixaram a oposição sem estratégia possível.

Mas as notícias recentes são, pelo contrário, uma boa oportunidade para a oposição perceber que existe uma estratégia política simples e evidente: regressar à normalidade.

 

É certo que o crescimento está longe de ser sustentável e que parte dos desequilíbrios que nos atiraram para a pré-bancarrota permanecem largamente inalterados. Só que a direita terá pouco a dizer sobre o rumo que o país deve tomar daqui para a frente, incluindo sobre a resolução daqueles problemas estruturais, se permanecer presa ao quadro mental do resgate.

 

Essa é uma armadilha que tem sido montada desde o início pela esquerda que apoia o Governo e na qual muitos políticos e comentadores de direita se têm deixado cair.

 

Não há nada que o actual Governo faça que não venha embrulhado numa comparação directa com o anterior. Trata-se muitas vezes de uma comparação errada e injusta.

 

Desde logo, porque se presume sempre, por omissão, que o PSD e o CDS não governaram sob os limites brutais de um programa de ajuda externa e num quadro internacional bastante menos favorável.

 

Depois, porque a comparação directa deveria ser, não com aquilo que o PSD e o CDS fizeram no anterior governo, mas com aquilo que previam fazer no pós-troika, segundo o seu programa eleitoral (no qual se comprometiam com uma reversão gradual das medidas do período de emergência financeira).

 

Por fim, porque se parte do princípio de que a estratégia do anterior governo não funcionou e que as esquerdas estão a cumprir a alternativa que prometeram - o que não é verdade.

 

Na oposição as esquerdas não se cansavam de deplorar a "obsessão pelo défice", incluindo as medidas extraordinárias como as cativações nos serviços públicos e o chamado "perdão fiscal". Diziam que só haveria crescimento com uma trajectória mais lenta de consolidação orçamental e a renegociação da dívida, em nome do investimento público e de uma reposição mais célere de rendimentos, que permitisse um crescimento assente na procura interna, mais do que nas exportações. Aliás, de cada vez que estas transmitiam sinais positivos, lá vinha a crítica de que tudo não passava do "boom" do turismo, resultado típico dos países do Terceiro Mundo.

 

E agora o que temos? Temos uma consolidação ainda mais acelerada, incluindo com ajuda das cativações e de um perdão fiscal, nenhuma política quanto à dívida, o investimento público em mínimos históricos e um crescimento assente nas exportações (no turismo), com uma ajuda comparativamente irrelevante da procura interna. Como não há milagres, até a reposição de rendimentos teve de ser compensada com o aumento da tributação indirecta.

 

Por aqui se percebe que a direita tenha a tentação de esgrimir a sua razão. Mas é por isso que é tão fácil cair na armadilha de só discutir o passado.

 

Em política não basta ter razão: é preciso também ter capacidade de representação. E a direita não representará ninguém se não se preocupar em definir bases programáticas distintivas para o futuro, sustentadas nos seus quadros doutrinários e em leituras próprias da realidade, contra um Governo ideologicamente talhado para desbaratar os frutos do crescimento.

 

Se se limitar a justificar o passado e a dizer que este Governo lhe dá razão, em retrospectiva estará simplesmente a assumir que, afinal, nada a distingue da coligação de Costa e companhia.

 

Advogado

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 dia

a verdade nua e crua - PARABENS !......

Mr.Tuga Há 1 dia

EXCELENTE artigo!