Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 13 de fevereiro de 2017 às 20:35

A montanha-russa!

A subida das taxas de juro na dívida pública vai, seguramente, propagar-se ao custo do financiamento empresarial.

A FRASE...

 

"Taxas de juro de 4% na dívida portuguesa 'são aceitáveis'."

 

Sérgio Aníbal e Luís Villalobos, Jornal Público, 13 de Fevereiro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

O maior risco para a competitividade empresarial vem da "montanha-russa" das taxas de juro, por contraste com os custos do trabalho, de que tanto se falou a propósito do aumento do salário mínimo. Ademais, porque as taxas de juro da dívida pública portuguesa se encontram num nível que é considerado historicamente aceitável, as empresas devem preparar-se para incorporar o "momento" nas suas decisões e opções estratégicas.

 

Mais uma vez, as estatísticas da central de balanços do Banco de Portugal ajudam-nos a lançar alguma luz sobre a discussão. No ano de 2015, os encargos com juros representavam, em média, 2,35% do preço de venda dos bens e serviços vendidos pelas empresas portuguesas. Em 2014, esta componente de custo estava nos 2,71% - i.e., superior em 0,36 pontos percentuais. Considerando que, no mesmo período, o peso dos custos com pessoal aumentou 0,14 pontos - de 13,06% para 13,20% -, é fácil compreender a importância da descida das taxas de juro para a competitividade.

 

Poderia argumentar-se que os bons resultados se devem à reestruturação das fontes de financiamento. Ainda que tal possa ter ocorrido marginalmente, não foi seguramente o feito mais significativo. Neste período, as taxas de juro médias praticadas nos empréstimos às empresas caíram de 4,14% para 3,85%, acompanhando a tendência de descida das taxas de juro da dívida pública a 10 anos, que registaram uma quebra de 3,75% para 2,72%. Aliás, a melhoria das contas de exploração (EBIT) é explicada em 20% pelo comportamento favorável dos juros.

 

A subida das taxas de juro na dívida pública vai, seguramente, propagar-se ao custo do financiamento empresarial. Num exercício estilizado, para um prémio médio de risco de 1,43 pontos percentuais - valor verificado em 2015, face às OT a 10 anos - as empresas verão o seu financiamento encarecer 50%, fazendo crescer o peso dos juros no preço de venda, de 2,35% para mais de 3,5%. Se não acautelado, um golpe severo na competitividade!

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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