A nova ‘anormalidade’ na política monetária

Os bancos centrais terão que enfrentar os mesmos dilemas políticos que surgiram na crise financeira global, incluindo a "escolha" de prosseguir ou não políticas monetárias não convencionais

Os mercados financeiros estão a começar a ficar agitados com o abrandamento das políticas monetárias não convencionais em muitas economias avançadas. Em breve, o Banco do Japão (BOJ) e o Banco Nacional Suíço (SNB) serão os únicos bancos centrais que ainda mantêm políticas monetárias não convencionais a longo prazo.

 

A Reserva Federal dos EUA começou a eliminar progressivamente o seu programa de compra de activos (QE) em 2014 e começou a normalizar as taxas de juro no final de 2015. E o Banco Central Europeu está agora a ponderar o ritmo de diminuição da sua própria política de alívio quantitativo em 2018, e em que altura começará a eliminar também as taxas de juro negativas.

 

Da mesma forma, o Banco de Inglaterra (BoE) terminou a sua última ronda de QE - que lançou depois do referendo sobre o Brexit em Junho do ano passado - e está a considerar subir os juros.  E o Banco do Canadá (BOC) e o Reserve Bank of Australia (RBA) sinalizaram que o aumento das taxas de juro está para breve.

 

Ainda assim, todos estes bancos centrais terão de reintroduzir políticas monetárias não convencionais se ocorrer outra recessão ou crise financeira. Consideremos a Fed, que está numa posição mais forte do que qualquer outro banco central para se afastar de políticas monetárias não convencionais. Mesmo que a sua política de normalização seja bem-sucedida em levar as taxas de juro de volta ao nível de equilíbrio, esse nível não será superior a 3%.

 

Vale a pena lembrar que, nos dois últimos ciclos de aperto monetário por parte da Fed, a taxa de equilíbrio foi de 6,5% e 5,25%, respectivamente. Quando a crise financeira global e a consequente recessão surgiram em 2007-2009, a Fed reduziu os juros de 5,25% para 0%. Depois de verificar que não era suficiente para impulsionar a economia, a Fed começou a adoptar políticas monetárias não convencionais, lançando o QE pela primeira vez.

 

Como os últimos ciclos de política monetária demonstraram, mesmo que a Fed consiga levar a taxa de equilíbrio de volta a 3% antes de surgir a próxima recessão, não terá espaço suficiente para manobrar de forma eficaz. Os cortes nos juros atingirão o limite inferior zero antes que consigam ter um impacto significativo na economia. E quando isso acontecer, a Fed e outros grandes bancos centrais ficarão com apenas quatro opções, cada uma delas com seus próprios custos e benefícios.

 

Em primeiro lugar, os bancos centrais poderiam restaurar as políticas de flexibilização quantitativa ou de crédito, comprando dívida pública de longo prazo ou activos privados para aumentar a liquidez e incentivar o crédito. Mas, ao expandir amplamente os balanços dos bancos centrais, o QE tem custos e riscos.

 

Em segundo lugar, os bancos centrais poderiam voltar aos juros negativos, como o BCE, o BOJ, o SNB e alguns outros bancos centrais fizeram, além da flexibilização quantitativa e de crédito, nos últimos anos. Mas as taxas de juro negativas impõem custos aos aforradores e aos bancos, que depois são passados para os clientes.

 

Em terceiro lugar, os bancos centrais poderiam alterar a sua meta de inflação de 2% para, digamos, 4%. A Fed e outros bancos centrais estão a explorar informalmente esta opção agora, porque poderia aumentar a taxa de juro de equilíbrio para 5-6% e reduzir o risco de atingir o limite inferior zero noutra recessão.

 

No entanto, esta opção é controversa por alguns motivos. Os bancos centrais já estão a ter dificuldades em atingir uma taxa de inflação de 2%. Para alcançar uma meta de inflação de 4%, podem ter de implementar políticas monetárias ainda menos convencionais durante um período de tempo ainda maior. Além disso, os bancos centrais não devem assumir que a revisão das expectativas de inflação de 2% para 4% funcionará sem problemas. Quando se permitiu que a inflação deslizasse de 2% para 4% na década de 1970, as expectativas de inflação desancoraram-se completamente, e o crescimento dos preços ultrapassou largamente os 4%.

 

A última opção para os bancos centrais é reduzir a meta de inflação de 2% para, digamos, 0%, como o Banco de Pagamentos Internacionais recomendou. Uma meta de inflação mais baixa aliviaria a necessidade de políticas não convencionais quando os juros estão próximos de 0% e a inflação ainda está abaixo dos 2%.

 

Mas a maioria dos bancos centrais tem as suas razões para não prosseguir essa estratégia. Para começar, a inflação zero e os períodos persistentes de deflação - quando a meta é 0% e a inflação está abaixo da meta - podem levar à deflação da dívida. Se o valor real (ajustado pela inflação) das dívidas nominais aumenta, mais devedores podem cair em falência. Além disso, em economias pequenas e abertas, uma meta de 0% poderia fortalecer a moeda e aumentar os custos salariais e de produção para os exportadores nacionais e os sectores concorrentes das importações.

 

Em última análise, quando a próxima recessão surgir, os bancos centrais das economias avançadas não terão escolha a não ser baixar os juros para zero novamente, enquanto escolhem entre quatro opções pouco atractivas. As escolhas que fizerem dependerão da forma como pesam os riscos de aumentar os seus balanços, impor custos aos bancos e aos consumidores, perseguir metas de inflação possivelmente inatingíveis e prejudicar os devedores e os produtores domésticos.

 

Por outras palavras, os bancos centrais terão que enfrentar os mesmos dilemas políticos que surgiram na crise financeira global, incluindo a "escolha" de prosseguir ou não políticas monetárias não convencionais. Como a economia não está a salvo de uma nova crise financeira, as políticas monetárias não convencionais, ao que parece, vieram para ficar.

 

Nouriel Roubini é CEO da Roubini Macro Associates e professor de Economia na Stern School of Business, NYU.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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