Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 15 de novembro de 2017 às 19:23

A nova censura

A nova censura é a que se pratica nos tempos da multiplicidade dos meios de comunicação, com instrumentos de captura e de manipulação dos conteúdos que são inseridos nos circuitos de transmissão da informação.

A FRASE...

 

"Crescemos 3% entre Abril e Junho. No entanto, dos 28 países da União Europeia, só nove cresceram menos do que Portugal. E esse ritmo não se vai repetir, pelo menos até ao fim de 2019. Um fogo-fátuo."

 

João Vieira Pereira, Expresso, 11 de Novembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

A velha censura operava por cortes, fazendo desaparecer o que era incómodo ou não devia ser conhecido. Não se tratava de resolver o problema, mas apenas de esconder o problema quando este desmentia a retórica do poder. Mesmo nesses tempos antigos, houve quem encontrasse fórmulas de censura mais elaboradas, explorando a mistificação da verdade escolhida. Quando das eleições presidenciais de 1958, Salazar recebe em audiência um empresário no seu gabinete e tira de uma gaveta uma resma de folhas, dizendo "estes são os resultados das eleições". Depois de guardar os papéis na primeira gaveta de onde os tinha tirado, abre uma segunda gaveta, coloca as folhas que lá estavam em cima da secretária e declara: "Estes são os resultados com que vamos trabalhar." Este poder ainda durou, mas não conseguiu neutralizar o que o ameaçava.

 

A nova censura é a que se pratica nos tempos da multiplicidade dos meios de comunicação, com instrumentos de captura e de manipulação dos conteúdos que são inseridos nos circuitos de transmissão da informação. Já não são possíveis os antigos cortes, é preciso trocá-los pelas modernas sobreposições: a multiplicidade de verdades em confronto mantém as mentiras na sombra. Misturando o que é objectivo com o que é ilusório, o linear com o circular, o observado com o imaginado, o poder político silencia os adversários porque lhes anula a voz - tudo é equivalente porque tudo é relativo, tudo se resume a posições, perspectivas e interesses, a observação da realidade torna-se impossível. A luta de todos contra todos, que a política deveria controlar e resolver, passou a ser a luta pela informação, na qual o ruído excessivo anula a possibilidade de se encontrar o sentido da evolução das coisas e o significado dos indicadores.

 

Numa União a 28, Portugal está no grupo dos últimos. Apresentar este facto como um sucesso político prova a eficiência da nova censura. É a sobreposição do que está na gaveta 2 sobre o que está na gaveta 1.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
judas a cagar no deserto Há 3 semanas




xuxxialismus . . . .


Numa União a 28, Portugal está no grupo dos últim Há 3 semanas

Sempre esteve, meu caro senhor, só que agora está mais distante do último lugar do estava há 2 anos. Com o seu comentário, o sr. está justamente "misturando o que é objectivo com o que é ilusório, o linear com o circular, o observado com o imaginado".

Mr.Tuga Há 3 semanas

Certo!
Mas o povão da pocilga atrasada tuga, não gosta nem quer saber da VERDADE! Prefere viver na "ficção" e acompanha a maraBilhosa seLIXOão de chutadores de boila, p+tas e vinho verde e pegar uns fogos na floresta....
Este sitio de TRAMPA merece-se.