Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de outubro de 2017 às 20:15

A nova era da China

Xi Jinping reforçou o seu poder e definiu a estratégia chinesa para as próximas décadas. A China vai tornar-se definitivamente uma superpotência global. 

Entre rumores de tentativas de uma conjuração para afastar Xi Jinping, o 19.º Congresso do Partido Comunista da China colocou-o no panteão ao lado de Mao Tsé-Tung e de Deng Xiaoping. Anunciando uma "nova era" para a China, que a colocará dentro de poucas décadas como uma potência global, Xi deixou um programa que ultrapassará em muito o seu tempo como líder chinês. No seu discurso de quase quatro horas, descreveu o seu modelo de "democracia socialista", o único modelo que, disse, se contrapõe à democracia liberal ocidental. A agência Xinhua referiu-se ao discurso dizendo que ele assinalava que "o século XXI verá o capitalismo a perder a sua atracção enquanto o movimento socialista, liderado pela China, crescerá". Ao mesmo tempo deve assistir-se a um refrescamento dos lugares cimeiros. Seja como for, pareceu evidente que Xi tentou conseguir os seus três principais objectivos: tornar os seus pensamentos linhas de força estratégicas para a China nos próximos anos e conseguir que elas fossem reconhecidas na constituição do PCC; ter o controlo do Exército Popular de Libertação; e conseguir a hegemonia do Politburo de 25 membros com fiéis seus. Nos próximos dias se perceberá se este último vértice do seu poder terá sido alcançado, porque os outros dois já o foram.  E os nomes que caem, como o do encarregado da campanha anticorrupção, Wang Qishan, sucedem por limites de idade, uma lógica que Xi não quis alterar.

 

Inicia-se assim a segunda fase da estratégia do "sonho chinês", arquitectada por Xi Jinping, e que deverá estar concluída daqui a três décadas. A iniciativa da nova rota da seda é central na estratégia global da China, porque terá consequências geopolíticas e geoeconómicas que ultrapassam as mais evidentes. Isto numa altura em que os EUA se estão a tornar mais isolacionistas e abrem, assim, espaço a que a China ocupe o seu lugar vago. Xi percebeu que ser líder global implica ser fornecedor de conectividade, de financiamento para infra-estruturas, assistência técnica e ouras lógicas de "modernização", algo que sempre fez parte da estratégia global dos EUA desde a II Guerra Mundial. E, com isto, a moeda chinesa, o yuan, poderá tornar-se também uma referência nas trocas comerciais. No meio disso, Hong Kong (e, em menor grau, Macau) será, depois de ter sido o facilitador de negócios entre a China e o Ocidente, o "hub" de financiamento desta interconectividade global. Será o grande centro financeiro desta nova era de comércio global liderado pela China. Xi Jinping tem uma visão para a China. E para o mundo. Devemos estar atentos a ela.

 

Curdistão: uma luta com muitos peões

 

Desde que o Presidente da região curda do Iraque, Massoud Barzani, decidiu apelar a um referendo para declarar a independência, que se sabia que países formariam uma coligação para neutralizar a ideia. Com 30 milhões de curdos a viver numa região que se espalha por quatro países, a Turquia, o Iraque e o Irão têm em comum a sua oposição à ideia de um estado curdo independente. Mas sempre pareceu, face à posição não muito clara dos EUA (que tem utilizado os curdos como troa terrestre na luta contra o Daesh) que poderia suportar a ideia de Barzani. Benjamin Netanyahu foi claro ao dizer que apoiava os "legítimos esforços" dos curdos a ter o seu próprio estado. Compreende-se a estratégia política de Israel: com o Irão no leste, um estado curdo no meio do caos do Médio Oriente seria uma boa ideia. A Arábia Saudita parece estar de acordo com a mesma ideia. Apesar de defender a unidade do Iraque em termos públicos, Riade vê com bons olhos a possibilidade de desintegração do estado iraquiano e a possibilidade de se colocar em causa a integridade da Turquia e do Irão, rivais (e inimigos) na região. Os Emirados Árabes Unidos também parecem estar a favor de um estado curdo independente. Mas a recente queda de Kirkuk às mãos do exército iraquiano parece estar a fazer com que a Arábia de Saudita continue a oscilar entre a sua posição oficial e a oficiosa. Até porque muitas das forças iraquianas, que avançaram com as milícias iranianas, foram treinadas pelos americanos, que também são aliados de Riade e Ancara. A "limpeza étnica" à volta de Kirkuk foi real: cerca de 100 mil curdos fugiram e muitos peshmerga foram mortos. No meio de tudo isto, Barzani parece ter confiado demasiado nas ajudas de Riade, e mesmo de Washington. Esta retirada americana da região está a criar vencedores: o Irão, que passou a ser um grande aliado da Turquia na região. E a Arábia Saudita ficou mais fraca, com menos poder para os sunitas que desejava mostrar que era a líder.

 

Brasil: China Telecom quer Oi

 

O grupo brasileiro de telecomunicações Oi é uma das hipóteses de investimento que estão a ser consideradas, disse o presidente do grupo estatal China Telecommunications Corp (China Telecom) à margem do 19.º Congresso Nacional do Partido Comunista da China. Segundo o China Daily, Yang Jie disse que o grupo pretende expandir-se no estrangeiro, tendo estado a analisar diversas hipóteses de investimento, uma das quais é o grupo Oi. O grupo China Telecommunications Corp anunciou já este ano pretender investir mais de mil milhões de dólares no decurso dos próximos três a cinco anos na expansão da sua actividade nos países abrangidos pela iniciativa "Uma Faixa, Uma Rota."

 

Macau: BIC com agência

 

O angolano Banco BIC vai apresentar, em Novembro, um pedido para abrir uma representação em Macau. Belarmino Barbosa, representante de Angola no Fórum Macau, disse ter sido informado dessa decisão pelo presidente do conselho de administração do Banco BIC, Fernando Teles, cabendo ao Governo de Macau "aceitar ou não o pedido".  

 

China/Angola: novo parque industrial

 

Um parque industrial com cerca de 2.000 hectares vai ser construído na província de Luanda ao abrigo de um protocolo de cooperação com o Conselho de Promoção do Comércio Internacional da China em Guangdong (CCPIT). "Estamos a preparar a construção de um grande parque empresarial - o Luanda-Guangdong Business Park - na província de Luanda, mais concretamente em Viana, na zona económica especial, onde se poderão instalar empresas de Cantão", disse Francisco Viana à margem de um fórum para o comércio e o investimento entre Angola, Guangdong e Macau, inserido na Feira Internacional de Macau (MIF). Este protocolo surge na senda de um outro entre as províncias de Luanda e de Guangdong. 

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