Daniel Gros
Daniel Gros 21 de junho de 2017 às 14:00

A nova esperança da Europa?

Tal como agora estão as coisas, já não existe a necessidade de acções de emergência. A tensão nos mercados financeiros atenuou e a economia está a expandir-se, com o emprego a regressar ao pico pré-crise. Portanto o foco político deve incidir em reformas para o longo prazo.

A vitória do pró-europeu Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alimentou a esperança de que no horizonte surja uma renovada liderança franco-alemã na União Europeia. Depois das eleições gerais alemãs de Setembro, espera-se que uma mais estável UE possa começar a fazer progressos muito mais rápidos em termos de unidade e integração.

 

Para que isso aconteça, reforçar a Zona Euro parece um óbvio primeiro passo – um passo que o próprio Macron colocou várias vezes em cima da mesa. Mas isso poderá ser bem mais difícil do que se antecipou. Por uma razão: existem enormes diferenças entre as filosofias económicas dos decisores em França e na Alemanha.

 

Como Markus K. Brunnermeier, Harold James e Jean-Pierre Landau explicam, a Alemanha tornou-se na campeã da defesa de um sistema baseado em regras que enfatizam a manutenção de défices baixos e, de uma forma geral, a proibição de resgates aos devedores. França, pelo contrário, tende a apoiar a ideia de que o Estado deve poder intervir quando necessário, agravando o défice ou mesmo assegurando resgates para prevenir crises. Felizmente, o programa de Macron reconhece elementos da abordagem alemã, tais como a necessidade de orçamentos equilibrados no longo prazo, o que sugere que, sob a sua liderança, um compromisso franco-alemão talvez seja possível.

 

É claro que as diferenças entre França e a Alemanha vão para lá de filosofias económicas, são também sobre os reais desempenhos. Mas mesmo essas diferenças não apresentam um obstáculo intransponível à cooperação.

 

Sendo certo que muito se tem falado na fragilidade da economia francesa, sob muitas formas, França representa a média da Zona Euro. A sua taxa de crescimento tem sido aproximadamente meio ponto percentual inferior à da Alemanha ao longo dos últimos anos. Mas isso está agora a mudar e o crescimento potencial futuro da França é cerca de meio ponto percentual superior ao da Alemanha, um país cuja população está a diminuir.

 

Além do mais, a taxa de desemprego francesa está a diminuir, embora permaneça muito acima da verificada na Alemanha. Da mesma forma, enquanto as finanças públicas gaulesas continuam a ser um problema, o nível da dívida está numa trajectória descendente e o programa de Macron reconhece a necessidade de reduzir a despesa para permitir cortar a carga fiscal.

 

Neste contexto, uma iniciativa franco-alemã com vista a reformar a Zona Euro pode bem ser viável. E se for, o que é que pode ser feito para apoiar a união monetária?

 

Tal como agora estão as coisas, já não existe a necessidade de acções de emergência. A tensão nos mercados financeiros atenuou e a economia está a expandir-se, com o emprego a regressar ao pico pré-crise. Portanto, o foco político deve incidir em reformas para o longo prazo.

 

Tal agenda deverá incluir a conclusão da união bancária, com o reforço das garantias comuns de depósitos. O desafio continua a ser o facto de as garantias comuns de depósitos serem incompatíveis com as actuais práticas dos bancos, que continuam a deter muito grandes quantias de dívida dos seus Estados. Se o Estado se tornar insolvente, e os bancos "crasharem", os custos seriam suportados por toda a Zona Euro.

 

Aqui a disputa não é entre a Alemanha e França, mas entre a Alemanha e Itália. A Alemanha insiste em que, sem limites à quantia de dívida governamental que os bancos podem deter, nenhuma garantia comum de depósitos pode ser introduzida. Mas Itália opõe-se a tais limites, temendo que os custos de financiamento do Estado possam disparar. E que talvez também os bancos - que dependem financeiramente dos maiores ganhos assegurados pela posse de dívida pública - possam ser excessivamente penalizados.

 

Itália representa o ponto de fricção para a Alemanha no que diz respeito também à mutualização das dívidas. Os alemães acreditam suficientemente na estabilidade económica da França no longo prazo para considerarem algum tipo de pequeno orçamento para a Zona Euro. Mas quando se trata de Itália – com a sua combinação entre uma elevada dívida e dificuldades de crescimento -, a Alemanha não possui tamanha confiança. Isto representa o maior obstáculo à prossecução de uma maior integração orçamental no bloco do euro.

 

Existe outra área onde o problema preocupa mais a Alemanha e Itália do que a Alemanha e França: a gestão dos fluxos de refugiados e a distribuição de requerentes de asilo. Para ser rigoroso, o acordo de 2015 entre a UE e a Turquia, combinado com o encerramento da rota dos Balcãs na Primavera de 2016, reduziu o número de refugiados que conseguem chegar à UE pelo sudeste a uma mera gota no oceano.

 

Porém, milhares continuam a chegar pela fronteira sul, atravessando o Mediterrâneo. E à medida que o conflito na Líbia se intensifica, estes fluxos ameaçam aumentar. Actualmente, os refugiados resgatados no Mediterrâneo são levados para os portos mais próximos, que por acaso são em Itália. De acordo com o chamado Regulamento de Dublin, Itália é responsável pelo seu acolhimento, devendo assegurar apoio humanitário e processar as suas requisições de asilo, que são às centenas de milhares.

 

Para muitos desses requerentes de asilo, porém, chegar à Alemanha é o verdadeiro objectivo. O governo alemão sabe disso e reconhece que não pode somente esconder-se detrás do Regulamento de Dublin. Desta forma, tanto Itália como a Alemanha têm interesse em alcançar uma abordagem europeia que permita reforçar a capacidade da UE para vigiar as suas fronteiras externas, possivelmente através de uma Guarda Costeira Europeia, em paralelo à partilha do fardo de aceitar de forma mais equitativa refugiados em toda a União.

 

França não tem tido uma posição activa nesta discussão. Afinal de contas, o seu maior problema não é a imigração, mas a integração de imigrantes de segunda geração – e o extremismo que o falhanço nessa frente pode gerar.

 

Ainda assim, o novo presidente francês deve assumir um papel mais activo. Os pacotes de compromissos são uma especialidade da UE, e Macron não deve concentrar-se exclusivamente na agenda do euro. Em vez disso, deve ter em conta as prioridades de Itália, o maior obstáculo à reforma da UE, e da Alemanha. Isso significa preparar um pacote que responda às prioridades germânicas - designadamente assegurando estabilidade orçamental e fixando limites à posse de dívida pública pelos bancos – e, ao mesmo tempo, ajudar a diminuir os encargos de Itália na protecção das fronteiras externas através do acolhimento de mais refugiados. Com uma abordagem deste género, talvez 2017 possa realmente tornar-se num ponto de viragem para a Europa.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeu.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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mais votado Anónimo 21.06.2017

O pico pré-crise foi caracterizado pelo excedentarismo e a sobrecapacidade, os frutos e ao mesmo tempo adubos do super-endividamento. Estamos a voltar para lá em diversas economias como a portuguesa.

comentários mais recentes
Silva 22.06.2017

Na Alemanha há 12,5 milhões de trabalhadores que vivem abaixo do limiar de pobreza. Trabalhadores sem qualificações e desempregados vivem muito pior que noutros países europeus. Resulta das reformas que querem impor aos outros países. Os movimentos pro Europa das nações crescem e muito falta debater

Anónimo 21.06.2017

Johnny, essa pergunta tem resposta simples mas a resposta afigura-se como sendo de difícil aplicação em Estados, economias e sociedades capturadas pelas forças da iniquidade e da insustentabilidade como é o caso de Portugal. A criação de valor assenta na competitividade. A competitividade é desenvolver a economia através da criação de condições para que o mercado laboral seja o mais flexível possível e o mercado de capitais seja o mais forte e dinâmico que se conseguir, promovendo assim todas as condições para gerar, atrair e fixar o melhor e mais adequado talento e capital disponíveis nos mercados internos e externos de factores a cada momento. O lixo é tudo aquilo que se opõe a esta lógica e não reconhece a sua importância para que se possam atingir níveis de prosperidade, equidade e sustentabilidade elevados na economia. O limpa cús ou limpa caixotes do lixo da Suécia ou da Suíça ganha mais por causa disto. Não tem qualquer dom especial que o congénere português não tenha.

Anónimo 21.06.2017

O pico pré-crise foi caracterizado pelo excedentarismo e a sobrecapacidade, os frutos e ao mesmo tempo adubos do super-endividamento. Estamos a voltar para lá em diversas economias como a portuguesa.

Johnny 21.06.2017

Isso é muito bonito, ah e tal.. a esperança e o carlho
Mas... e eu que ganho 600€ mês a lavar cús quando é que vou ganhar 2500€ mês como um alemão que lava cús ?
É que o alemão pode vir-me aqui comprar as casas do meu bairro e eu vou morar para uma cazota porque não posso competir com ele

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