Simon Johnson
Simon Johnson 15 de janeiro de 2017 às 20:00

A oligarquia extrema de Trump

Trump parece estar determinado em baixar os impostos sobre o rendimento para os americanos que têm rendimentos elevados, bem como reduzir o imposto sobre ganhos de capital e quase eliminar os impostos sobre as empresas.

O presidente eleito dos Estados Unidos está a encher o seu gabinete com pessoas ricas. De acordo com a última contagem, os seus nomeados incluem cinco bilionários e seis multimilionários. Isto é o que é conhecido como uma oligarquia: controlo directo do Estado por pessoas com um substancial poder económico privado. Dado que os republicanos também controlam as duas Câmaras do Congresso – e vão em breve fazer muitas nomeações judiciais – virtualmente não há nenhuma restrição efectiva ao órgão executivo. 

 

Em muitos casos – incluindo hoje nos Estados Unidos – a reacção inicial a tal Governo incluiu a esperança de que talvez as pessoas ricas sejam boas a criarem postos de trabalho. Eles tornaram-se ricos, por isso, talvez possam fazer o mesmo pelo resto das pessoas.

 

A esperança geralmente é a última a morrer, mas as propostas de políticas económicas da próxima administração não são encorajadoras. O princípio organizador parece ser abandonar totalmente o pragmatismo e avançar com uma ideologia extrema e desacreditada.

 

O tema central da política económica de Trump até agora tem sido um rápido e acentuado corte nos impostos. Mas Mick Mulvaney, a pessoa escolhida por Donald Trump para gerir o Office of Management and Budget (uma espécie de ministério da Administração e do Orçamento e que tem a sigla inglesa de OMB) é um falcão proeminente e eloquente do défice; Mulvaney vai ter dificuldades em apoiar medidas que aumentem a dívida nacional.

 

Em parte, os cortes de impostos vão ser justificados com as projecções excessivamente optimistas em relação ao seu impacto no crescimento económico, como aconteceu com o presidente George W. Bush, algo com efeitos desastrosos em geral. Mas há um limite em relação à pressão que pode ser colocada sobre o Congressional Budget Office, que é responsável por dar avaliações credíveis sobre o impacto orçamental de novas medidas.

 

Trump parece estar determinado em baixar os impostos sobre o rendimento para os americanos que têm rendimentos elevados, bem como reduzir o imposto sobre ganhos de capital (pago sobretudo pelos mais ricos) e quase eliminar os impostos sobre as empresas (novamente, beneficiando desproporcionalmente os mais ricos). Para fazer isto, a sua administração vai ter de procurar um aumento dos impostos em outros lugares e agora estamos a começar a ver como é que vai ser. As pessoas próximas do presidente eleito estão a considerar uma tarifa de importação próxima dos 10%. 

 

Esta tarifa vai ser, sem dúvida, apresentada ao público como uma medida para tornar a produção norte-americana grande novamente. Mas uma tarifa é apenas outro nome para um imposto que aumenta os custos dos bens importados. Isto pode ajudar marginalmente as novas empresas – presumivelmente a equipa de Trump vai destacar as novas histórias (reais ou inventadas) sobre umas poucas centenas ou uns poucos milhares de trabalhos que foram "salvos".

 

Mas o custo por posto de trabalho vai ser elevado: todas as importações vão tornar-se mais caras e este aumento ao nível do preço vai ser filtrado através do custo de tudo o que os americanos comprarem. De facto, os oligarcas vão diminuir os impostos directos sobre eles e aumentar os impostos indirectos para todas as outras pessoas – o que se assemelha a aumentar o imposto sobre as vendas de todos os produtos. Perante tal proposta, o fardo dos impostos mudar-se-ia dos mais ricos para aqueles que têm menores rendimentos ou que têm uma pequena riqueza ou nenhuma.

 

E isso pode começar a ter um impacto negativo no bem-estar da maioria dos americanos. Se Trump aumentar as tarifas sobre os bens importados, alguns ou todos os parceiros comerciais norte-americanos, provavelmente, vão retaliar e impor tarifas aos bens norte-americanos exportados. À medida que empresas exportadoras dos Estados Unidos – muitas delas pagam salários elevados – venham a reduzir a sua produção, em relação àquilo que de outra maneira produziriam, o efeito provavelmente vai ser uma diminuição do número de bons empregos.

 

Alguns países – como a China – podem implementar outras medidas punitivas contra as empresas norte-americanas a operar no seu território. O efeito líquido vai ser novamente uma diminuição do emprego, tanto a nível mundial como nos Estados Unidos. O mundo já tem muita experiência em "guerras comerciais" e estas nunca foram positivas.

 

Por que é que um grupo de oligarcas norte-americanos persegue tal política desastrosa? A administração Trump está a tomar a forma de uma coligação de empresários que, erradamente, acreditam que o proteccionismo é uma boa maneira de ajudar a economia, e fundamentalistas do mercado, que agora dominam a convenção republicana na Câmara dos Representantes.

 

Antes da ascensão de Trump, a Câmara Republicana estava a desenvolver um conjunto de políticas estruturadas em torno de cortes de impostos e da desregulamentação (incluindo nas finanças e no meio-ambiente). Estava também a trabalhar na revogação da reforma na área da saúde do Presidente Barack Obama, o Affordable Care Act (conhecido por Obamacare). Contudo, os republicados eram resolutamente a favor do livre comércio – e o plano da administração Obama era adoptar a Parceria Transpacífico (TPP na sigla em inglês), um acordo de livre comércio com outros 11 países do Pacífico, algo que tinha um apoio substancial dos republicanos presentes no Congresso.

 

A eleição de Trump não mudou os pontos centrais da agenda da Câmara Republicana – de facto, levou arquitectos dessa agenda para o Governo, para o OMB, para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, para a CIA e para outras posições proeminentes, e possivelmente mais se vão seguir. Como explica o meu colega James Kwak no seu novo livro Economism, o seu pensamento pró-mercado foi longe demais e é pouco provável que conduza a um bom desfecho.

 

Vender o tema forte de Trump – o proteccionismo – à Câmara dos Republicanos não é fácil. Mas agora eles começaram a pensar numa tarifa sobre as importações como parte do seu pacote de "reformas" no âmbito dos impostos e assim todos vão alinhar. E vão dar justificações estranhas, que vão desviar a atenção do essencial das suas políticas: baixos impostos para oligarcas e pessoas como eles, e impostos elevados – já para não falar nas perdas significativas nos empregos bem remunerados – para quase todos os outros.

 

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor do livro "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You".

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Ler esta opiniao, foi tempo perdido; so falta dizer que o Obama e' que governou bem ao impobrecer os trabalhadores da America! e criando um deficit de 1 biliao de dolars anual nas transacoes com o mundo

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Anónimo Há 1 semana

Ler esta opiniao, foi tempo perdido; so falta dizer que o Obama e' que governou bem ao impobrecer os trabalhadores da America! e criando um deficit de 1 biliao de dolars anual nas transacoes com o mundo