Fernando  Sobral
Fernando Sobral 12 de outubro de 2017 às 20:30

A onda liberal e o Estado

Vivemos numa época em que os políticos são os elos mais fracos da sociedade: tudo parece ser culpa deles. Não deixa de ser curioso que isto suceda numa época em que muita da elite económica se diz liberal.

O choque frontal entre a política (e o Estado) e a ordem económica está novamente a desenhar-se. No meio de tudo isto é interessante recordar as palavras de Adam Smith que, na "Riqueza das Nações", escrevia: "O comércio e as manufacturas não podem florescer muito tempo num Estado que não disponha de uma ordenada administração da justiça, onde o povo não se sinta seguro na posse da sua propriedade, em que não se sustente e proteja, por imperativo legal, a honradez nos contratos, e que não se dê por certo que a autoridade do governo se esforça em promover os pagamentos dos débitos por quem se encontra em condições de satisfazer as suas dívidas. Numa palavra, o comércio e as manufacturas só podem florescer num Estado em que exista certo grau de confiança na justiça e no governo". É tudo isso que tem sido posto em causa. Sendo assim, quando não existir ninguém a tomar conta das ocorrências, a quem se recorrerá para garantir a confiança?

 

Evoluiu-se com os tempos para um sistema em que quanto mais bem-estar possuísse um cidadão mais útil seria para a economia em geral e para a sociedade. Porque funcionaria como o elemento que alimenta o sistema. Olhando para a nossa época, sobretudo depois da sangria da austeridade, pareceu começar a ser hegemónica uma outra ideia: o Estado e a classe média passaram a ser vistos como dispensáveis. O modelo económico que se tentou implementar em Portugal no tempo de Passos Coelho bebia nesta ideia.

 

O certo é que, na sequência deste princípio, se a classe média deixar de ter acesso ao bem-estar, torna-se uma classe inútil. Algo que é perigoso, porque ela é o sustentáculo das democracias. Vivemos, num mundo em que empresas de plataforma fogem ao controlo, e criam a sua própria força global, a tentações perigosas. O patriotismo está a transformar-se em nacionalismo e isso está a conduzir as franjas da antiga classe média para lógicas mais radicais. A economia "low cost", como se viu com a falência da Monarch e com os problemas da Ryanair, tem em si vírus do caos. Há poucos anos Josef Ackermann, que foi CEO do Deutsche Bank, disse: "Eu já não acredito no poder auto-regulador do mercado". Era um sinal, depois de Reagan nos ter dito que as palavras mais terríficas da língua inglesa eram: "eu sou do governo e estou aqui para ajudar". Essa teoria está agora a ser desenvolvida por Donald Trump até ao extremo: o caos começa a estar instalado na administração norte-americana. E muita da sua política, como se vê de uma forma maquiavélica nas questões do meio-ambiente (retirando-se de acordos internacionais e fechando agências americanas dedicadas ao tema) apenas serve para uma outra estratégia. São os bancos americanos que agora estão a investir, face à fuga do Estado, no meio ambiente. Para garantirem lucros, como é evidente. Se isso será bom ou mau só o futuro o dirá. Mas o que tudo isto torna evidente é que estamos a surfar uma onda que está a começar a cair. Veremos quem sofrerá os danos colaterais (ou totais) de tudo isso.

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