Filipe Jorge Almeida
Filipe Jorge Almeida 05 de outubro de 2017 às 17:30

A oportunidade da inovação social: da filantropia ao investimento social

Todos os negócios lucrativos, se geridos com respeito pelos direitos individuais, pela lei e em sã e livre concorrência, são geradores de valor social.

Desde logo, através da satisfação de necessidades de consumo da sociedade. Mas também através da geração de rendimento disponível para acionistas e trabalhadores. E, acima de tudo, através do pagamento de impostos sobre os lucros, permitindo ao Estado - o garante último dos direitos de cidadania - implementar políticas públicas, atendendo aos mais vulneráveis e prestando serviços públicos em benefício de todos.

 

No entanto, esta geração de valor social, embora preservando a matriz económica de um negócio lucrativo, é indireta. E hoje, no século XXI, a sociedade exige ao setor empresarial uma intervenção direta na resolução de problemas sociais. A forma tradicional desta intervenção direta é através do donativo a organizações sociais, frequentemente sem acompanhamento do impacto social produzido. Em Portugal, cerca de 57.000 empresas fazem donativos anuais de quase 165M€. Entre estas, 96% fazem donativos inferiores a 5.000€, com valor médio de 381€. A prática filantrópica tem sido tradicionalmente muito dispersa e raramente alinhada com o negócio e com a sua estratégia.

 

As empresas mais atentas e socialmente comprometidas estão, no entanto, a consolidar uma evolução da filantropia clássica para uma filantropia estratégica, orientada para o financiamento de iniciativas geradoras de impacto social e ambiental, com resultados mensuráveis e estrategicamente alinhados com a missão corporativa. O donativo torna-se assim investimento social, que pressupõe o financiamento de projetos com retorno social e ambiental, habitualmente desenvolvidos por organizações do setor social. Este setor, em Portugal, é constituído por mais de 60.000 organizações, representando já 6% do emprego remunerado, que corresponde a 215.000 empregos, com uma contribuição de 2,8% para o VAB nacional. Um setor que dá resposta a múltiplas necessidades sociais, seja através da intervenção autónoma, seja através da ação contratualizada com o Estado. A par com as respostas mais tradicionais, desenvolveu-se no início do século XXI um movimento espontâneo de novos empreendedores sociais que buscam dar respostas inovadoras para problemas sociais persistentes.

 

A inovação social, entendida como a mudança social sustentável que resulta de uma nova resposta social, constitui uma oportunidade de investimento estratégico para os investidores sociais do século XXI. Portugal tornou-se, com a iniciativa Portugal Inovação Social, um país pioneiro na Europa no incentivo e financiamento da inovação social com fundos comunitários, apoiando projetos em diferentes estados de maturidade, e envolvendo os investidores sociais neste movimento, permitindo organizar a sua filantropia e orientá-la no sentido de um investimento estratégico, mensurável, focado nos resultados e com impacto social.

 

Não por acaso será realizada em Portugal, nos dias 27 e 28 de novembro de 2017, a grande conferência europeia "Novas perspetivas para a Inovação social", que reunirá alguns dos maiores especialistas e empreendedores sociais do mundo para debater ideias, apresentar projetos e delinear o futuro. É um sinal do tempo que vivemos, do papel que tem Portugal nesta mudança e da oportunidade que representa a inovação social para as empresas e investidores que se pretendam posicionar como agentes de mudança social com impacto relevante no modo como podemos todos viver melhor.

 

Presidente da Estrutura de Missão Portugal Inovação Social

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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