Edson Athayde
Edson Athayde 02 de outubro de 2017 às 21:00

A parábola do homem sem histórias

Esvaziados de histórias somos pouco mais do que manequins de lojas de roupas, do que duendes de jardins, do que aquele puto que chora naquele quadro piroso.

"Era uma vez um homem que não sabia histórias. Não tinha lido livros, visto filmes, quando pequeno, os seus pais não haviam lhe contado fábulas.

 

O homem, não era surdo, até ouvia músicas, mas não sabia as letras das canções. Digamos que ele tinha uma espécie de condição genética rara, as histórias para ele nada diziam.

 

Ele era um tipo bastante literal. Não tinha sentido de humor, não entendia metáforas, poesia para ele soava apenas como palavras fazendo barulhos. Um romance ou as páginas amarelas para ele era a mesma coisa: um conjunto de nomes.

 

Era um homem que não ria: as piadas para ele nunca tinham graça. Era um homem que não chorava ao ouvir o hino do seu país. Não seguia nenhuma religião, não votava em nenhum partido, não sabia o que era pertencer a uma nação.

 

 Era um homem sem histórias e, por isto, sem história. Até que um dia tropeçou num livro. Não era um livro qualquer, era uma biografia, a sua biografia.

 

O homem que não sabia histórias leu o livro da primeira a última letra. Com o coração aos saltos finalmente percebeu uma narrativa, emocionou-se com um relato, descobriu-se um personagem, sentiu-se importante ao constatar que era um protagonista.

 

Ao fim da obra, o homem que não sabia histórias, deixou de ser isto e passou a ser outro, melhor, mais importante. Mudou até de nome e pediu para ser chamado daí em diante de Homo Sapiens".

 

Escrevi a parábola acima para abrir as minhas conferências sobre storytelling (como a que irei fazer no 1º Encontro de Escrita para Cinema e TV em Português, de 12 a 15 de Outubro, em Cascais. Mais informações em www.aquatromaos.pt).

 

A ideia é demonstrar que sem narrativas, sem histórias, perdemos muito da essência humana. Por incrível que pareça ainda há quem duvide disto. Ledo engano.

 

Esvaziados de histórias somos pouco mais do que manequins de lojas de roupas, do que duendes de jardins, do que aquele puto que chora naquele quadro piroso.

 

Não, errado. Somos menos.

 

O manequim, se calhar, antes era um príncipe que foi amaldiçoado. Os duendes, à noite, andam por aí a fazer travessuras. E se o puto chora, chora por algum motivo.

 

Por isso, amigos, cuidem para que as vossas vidas resultem em boas biografias. Dá trabalho. Mas tenham em mente que, no fim, se a história for rala, se o epílogo decepcionar, não vai adiantar reclamar do autor.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Shakespeare: "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, vazia de significado".

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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