Edson Athayde
Edson Athayde 11 de setembro de 2017 às 20:45

A poesia da realidade

Alguém disse que a ciência é a poesia da realidade. Pode ser, pode ser. Vamos explorar o tema. Em Maio de 1999, um filme de Hollywood de médio orçamento abriu uma caixa de Pandora.

Não que o que ele trouxesse fosse algo absolutamente novo. Mas a sua contundência ajudou a popularizar uma certa visão distópica da realidade.

 

O primeiro capítulo da saga "Matrix" apresentou-nos a hipótese de estarmos a viver uma realidade virtual.

 

"Somos apenas títeres de Deus", já afirma a maioria das religiões.

 

"Matrix", o filme, extrapola a coisa: Deus, na verdade, não passa de uma inteligência artificial tão evoluída que pretende eliminar o último traço possível daquilo que é humano (no caso, representado pela personagem Neo, interpretada por Keanu Reeves).

 

Qual a relevância de falar de um filme de há vinte anos (que já deve até passar nas tardes do domingo da RTP1)?

 

Bem, pergunte a Elon Musk. Leio no The Independent da semana passada que o famoso bilionário dono da Tesla e mais alguns outros ricos anónimos estão a financiar pesquisas que demostrem estarmos a viver numa "matrix".

 

O tema é tão ou mais interessante pois põe o dedo na ferida na ideia de que não existe a realidade. O que temos nada mais é do que o somatório de narrativas que foram sendo aceites ao longo do tempo.

 

Pode até soar loucura para si, mas trata-se de uma tese como outra qualquer. Civilizações antigas já tiveram diferentes ideias e versões sobre o que é real ou não.

 

A mitologia grega é toda baseada no conturbado convívio entre humanos e deuses. Eles achavam normal, nós não.

 

Até onde sabemos, incas, maias e astecas viviam também rodeados de entidades. Como os indígenas americanos. Como os indianos. Como quase a totalidade da cultura oriental.

 

Em boa verdade, católicos, protestantes, budistas, espíritas, umbandistas, enfim, qualquer seita ou religião que se mexa pretende formalizar a nossa relação com mundos paralelos.

 

Logo, porque soa tão bizarro cientistas trabalharem em laboratório a tentar quebrar a "matrix"?

 

No filme, Neo tinha de escolher entre duas pílulas oferecidas por Morpheus (já agora, o nome do deus dos sonhos). Se tomar a azul, continua a sua vidinha normalmente. Se tomar a vermelha, descobrirá a verdade por trás do mundo que julga real.

 

Somos todos Neo. Somos todos Keanu Reeves. Julgamos que as pílulas vermelhas são meras ficções. Serão?

 

Faça de contas que eu sou Morpheus. Pergunto qual das pílulas pretende tomar hoje?

 

Lembro que os bons remédios costumam ser amargos.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, parafraseando o poeta: "É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la."


Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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