Mark Malloch Brown
Mark Malloch Brown 02 de fevereiro de 2017 às 20:00

A política económica que Trump deveria implementar

Em vez de usar estímulos orçamentais num esforço vão para revitalizar indústrias e velhas fontes de energia, a administração Trump – e o mundo – deve apostar num futuro com baixo carbono.

Agora que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, um grupo de 35 líderes empresariais internacionais proeminentes, liderado pelo CEO da Unilever, Paul Polman, e por mim, está a dar um passo em frente na defesa dos mercados, no apoio à luta contra as mudanças climáticas e a exigir um grande esforço para lutar contra as desigualdades mundiais. Estes são os elementos principais do que acreditamos ser a única estratégia económica viável para os Estados Unidos e para o mundo.

 

Os recentes desfechos eleitorais, incluindo a eleição de Trump, dão destaque às queixas em termos económicos de cada vez mais famílias por todo o mundo desenvolvido. Nos 20 anos que antecederam a crise financeira de 2008, a globalização sem precedentes fez com que os rendimentos crescessem para, basicamente, toda a gente. Os rendimentos da terceira parte mais pobre da humanidade aumentaram entre 40 a 70% e os que estavam a meio desta terceira parte viram os seus rendimentos crescerem 80%. As pessoas que constituem 1% da população que está no topo tiveram um desempenho ainda melhor – muito melhor, de facto, que a elite empresarial que enfrenta agora uma poderosa reacção negativa.

 

E, ainda assim, os rendimentos de um grupo crucial – as famílias de classe média baixa – foram os que sofreram um crescimento muito pequeno. E, desde 2008, este grupo tem suportado o peso da austeridade. Sem surpresas, os seus membros sentem que "foram deixados para trás" pela globalização – e exigem agora uma mudança.

 

A administração de Trump pode tentar abordar os problemas deste grupo isoladamente, com políticas que estejam direccionadas para indústrias específicas ou tentando limitar a concorrência comercial. Mas os problemas que enfrentam estas famílias não estão isolados. Em vez disso, resultam de limites económicos e ambientais atingidos agora pelo modelo de crescimento económico prevalecente – e pela versão de globalização em que este modelo está apoiado. Ignorar esta realidade e implementar soluções nacionalistas só vai tornar as coisas piores.

 

Socialmente, as dificuldades nos estados norte-americanos chamados Rust Belt, onde o apoio a Trump foi importante para a sua vitória, é uma consequência indesejada do rápido crescimento do mercado mundial de trabalho que deixa os trabalhadores vulneráveis em quase todos os locais – mesmo nas economias emergentes cujos trabalhadores têm parecido ser os "vencedores" da globalização nas últimas décadas. Os países e regiões que concorrem para atrair o investimento de empresas são negociadores frágeis e fracos defensores de elevados padrões laborais.

 

Na frente ambiental, as provas são terríveis. A actividade humana já levou o planeta a ultrapassar quatro das suas nove barreiras de segurança, incluindo as relativas às mudanças climáticas e à perda da integridade da biosfera. O crescimento rápido dos custos provocados pelos danos ambientais está a restringir o crescimento económico, fazendo com que o relaxamento das protecções ambientais acabe por se traduzir em falsas poupanças económicas.

 

Por exemplo, os danos nos ecossistemas e na biodiversidade causados pelas actuais práticas no sector alimentar e agrícola podem custar o equivalente a 18% da produção económica mundial em 2050, um valor bem acima dos cerca de 3% que custaram em 2008. Nos mercados emergentes, em especial na Ásia, a rápida expansão económica gerou o smog, que é uma ameaça para a vida, e constantes engarrafamentos nas cidades que são incapazes de expandir as suas infra-estruturas com rapidez suficiente.

 

Abordar os problemas ecológicos e ambientais actuais do mundo, e melhorar várias das questões que foram deixadas para trás, vai exigir uma acção pública, como aquela que supervisionei quando estive no Banco Mundial, nas Nações Unidas e no Governo britânico. Mas vai exigir também a participação das empresas.

 

Na minha carreira, vi em primeira mão que o crescimento impulsionado pela concorrência empresarial num mundo globalizado pode fazer mais para combater a pobreza, a fome e as doenças do que os programas financiados pelos governos sozinhos. Mas quando a concorrência não é conduzida com responsabilidade, o oposto pode acontecer – e, em muitos casos, aconteceu.

 

Ao aproveitar as oportunidades da globalização, as empresas frequentemente negligenciam os trabalhadores no mundo desenvolvido que deixam para trás, enquanto os trabalhadores nos países em desenvolvimento são sujeitos a extraordinárias privações. Além disso, os negócios individuais frequentemente fazem lóbi contra as protecções ambientais, chegando mesmo a contorná-las, que são indiscutivelmente do nosso interesse colectivo.

 

Hoje, sou encorajado a ver que um grupo, que está em rápido crescimento, de líderes empresariais reconhece que maior liberdade e riqueza implica grandes responsabilidades para com o trabalho e para o ambiente. Esperamos que a nossa estratégia para uma continuação da globalização – de uma forma revista que é mais sustentável e inclusiva – atraia muitos mais líderes para esta causa.

 

O enquadramento da nossa estratégia está já estabelecida, assumindo a forma de 17 Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável, que os membros das Nações Unidas acordaram em 2015. Alcançar estes objectivos vai significar um salário, condições de trabalho e redes de segurança decentes para todos os participantes no mercado laboral mundial, bem como uma salvaguarda para o ambiente.

 

Os Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável também prometem dar terreno para uma concorrência que impulsione o crescimento. Nos quatro grandes sectores que consideramos, encontramos oportunidades de negócio com elevados retornos que surgiram com esta estratégia, impulsionando um aumento do PIB mundial anual para pelo menos 12 biliões de dólares. Outra mudança que advogamos – em especial a criação de preços para recursos que reflitam os seus custos sociais e ambientai – vai assegurar que o crescimento económico futuro protege tanto os trabalhadores como o planeta.

 

Assegurar estes desfechos não vai ser fácil, porque vai exigir um novo contrato social entre governos, empresários e sociedade civil. Para ser bem-sucedido, todas as partes têm de se encarar como colaboradores de um negócio em que todos vão ganhar, em vez de verem-se como adversários num jogo de soma zero. Todas as provas indicam que apenas uma economia mundial mais sustentável, aberta e inclusiva pode apoiar um futuro para humanidade que seja seguro em termos ambientais, economicamente e socialmente próspero.

 

E em relação aos Estados Unidos, está estratégia está em linha com as prioridades declaradas por Trump. Não apenas oferece uma solução mais promissora para as queixas do foro económico dos seus principais apoiantes, mas implica também uma subida nos gastos com infra-estruturas, algo que Trump já tinha prometido.

 

Em vez de usar estímulos orçamentais num esforço vão para revitalizar indústrias e velhas fontes de energia, a administração Trump – e o mundo – deve apostar num futuro com baixo carbono. Muitos negócios certamente adoptariam essa estratégia.

 

Mark Malloch Brown preside à Comissão de Negócios e Desenvolvimento Sustentável.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
T
radução: Ana Laranjeiro

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