Fernando  Sobral
Fernando Sobral 15 de Dezembro de 2016 às 20:15

A política na idade do Twitter

Na idade em que a política passou a ser delineada pelo Twitter, em Itália sussurra-se que Silvio Berlusconi poderá vir a ser a "salvação" do regime, contra as tendências da direita que quer "libertar" o norte do país e o movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo.

Há quem faça, neste tempo de mutação acelerada da política, uma ligação entre Berlusconi e o imprevisível Donald Trump. Mas há diferenças entre o populismo de ambos. No seu auge, Silvio Berlusconi controlava todas as televisões do país e grande parte da imprensa escrita. Tinha desde logo uma vantagem enorme sobre o resto dos partidos e das opiniões que lhe eram contrárias. Pelo contrário, Donald Trump fez uma campanha sem o apoio dos meios de comunicação tradicionais. E ganhou contra todos, utilizando-os e manipulando-os. O sistema político a que estávamos habituados sofreu um forte abanão e parece agora ligado a uma máquina de preservação de sinais vitais. Veremos o que sairá desta equação que não constava das contas normais.

 

Há uma outra diferença neste novo mundo do populismo e da crise das democracias. Berlusconi vendia, num tempo de euforia, um falso optimismo. Donald Trump dirigiu-se, pelo contrário, a uma América zangada. Não deixa de ser curioso que muitos latinos votaram em Trump, apesar de tudo o que ele disse sobre os emigrantes e o México. Ou seja: ele percebeu algo. Mesmo muitos emigrantes não querem competição no mercado de trabalho. Desejam segurança. E Trump promete-lhes isso. Este egoísmo é hoje fulcral na nova forma de se fazer política populista. Por isso ao contrário do que se julga será mais fácil a um eleitor típico da esquerda francesa votar numa segunda volta por Marine Le Pen do que por François Fillon, o representante da direita pró-mercado e anti-estatista. Os franceses desejarão Estado e segurança. É isso que Le Pen promete. Como Trump, que não esconde que o Estado irá escolher vencedores no meio do mercado. Não serão as regras de mercado a funcionar, como já explicou à Boeing, à Apple ou à Ford. O Estado será determinado e defenderá as empresas que estejam com ele. Não admira o seu fascínio por Vladimir Putin.

 

As democracias suicidam-se. E é isso que está a acontecer na Europa. A batalha gramsciana de hegemonia política está a ganhar um novo marco conceptual. Agora pode mentir-se sem consequências. A nova revolta contra as elites surge em todas as esquinas, propiciada pela austeridade cega e a sensação de insegurança que é cada vez mais latente. Assumir com tranquilidade a pós-verdade como algo normal, inevitável numa sociedade mediática e de curta memória em que vivemos está a trazer uma enorme crise à democracia. Está a fechar-se a porta que constitui a essência do sistema democrático onde ninguém é detentor de toda a verdade. Basta olhar para o que se escreve no Twitter ou no Facebook para se perceber como esta gritaria constante, este ódio destilado contra todos os que se movem ou pensam de forma diferente, está a arrasar o diálogo sensato. Vivemos tempos difíceis. A crise económica trouxe uma crise de valores e de solidariedade. Longe vai o tempo dos Mosqueteiros: todos por um e um por todos. 

 

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Anónimo Há 6 dias

Excelente artigo.

Logo que me apercebi do programa econõmico, ultra- liberal, de Fillon, e do cuidado que Marie le Pen tem em insistir/garantir apoios sociais generalizados, que também penso que esta última candidata vai conseguir muitos dos votos da esquerda tradicional.

Le Pen, a próxima presidente de França? Se calhar ...