Jaime Nogueira Pinto
Jaime Nogueira Pinto 02 de janeiro de 2017 às 15:45

A política vai reivindicar os seus direitos

A eleição de Donald Trump, além de surpreender, perturbar e escandalizar muitos, obriga-nos a todos a pensar – ou devia obrigar.
Como no fim da Segunda Guerra Mundial, como depois do Vietname e do Watergate, como na vitória na Guerra Fria, esta eleição teve o mérito de acicatar um debate sobre a América e o Mundo fora dos parâmetros habituais, isto é, do internacionalismo liberal como pensamento único.

O Brexit e a vitória de Trump marcaram o fim do velho paradigma: os ingleses privilegiaram a identidade nacional e o governo nacional contra a diluição e a integração europeias, apesar dos custos económicos e dos sacrifícios no bem-estar. Trump apostou num programa em que o "salus populi" do povo americano passou a ser a lei imperativa da República, vencendo a candidata que encarnava a ideologia estabelecida – liberal na economia, libertária nos costumes, internacionalista nas relações externas.

A tendência tinha começado antes, quando os alemães das duas Alemanhas pagaram para reunificar a nação dividida e quando a Rússia saiu dos escombros da União Soviética e se afirmou como potência nacionalista, conservadora e "russa" na Eurásia.

Agora, na Ásia, enquanto Xi Jinping reforça o controlo da política e do partido sobre a economia e a sociedade, o Japão de Abe afirma o direito a ter Forças Armadas e a celebrar a História.

No Politburo do Mundo

A Nação e o Estado Nacional, cuja morte foi anunciada e festejada por luminárias mundiais e caseiras, parecem vivos e de boa saúde. O Reino Unido, os Estados Unidos, a Rússia e a China, quatro dos cinco Estados membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Politburo do mundo, seguem o novo caminho; e a França, o quinto Estado membro, terá, a partir de Maio, orientação semelhante – com François Fillon ou com Marine le Pen.

A Nação e o Estado Nacional, cuja morte foi anunciada e festejada por luminárias mundiais e caseiras, parecem vivos e de boa saúde.
Os internacionalistas liberais que identificaram o nacionalismo, todo o nacionalismo, com o hitlerismo, esqueceram-se que o nacionalismo é o culto da nação e que a nação é a comunidade identitária por excelência, comunidade em que se realizam os valores e as liberdades religiosas, morais e sociais.

O novo centro

Os Estados nacionais voltam a ser o centro das lealdades e da política mundial no ano de 2017. Na Ásia e na Ásia-Pacífico as relações entre Estados lembram a Europa do século XIX depois da reunificação italiana e alemã. O Médio Oriente, pelo conflito Israel-Palestina e pela fragmentação resultante das guerras do Iraque e da Síria e da emergência do Daesh, é uma zona de divisão e alta fragmentação, de guerra de todos contra todos, que mostra bem os custos da destruição do Estado soberano e da sua substituição por lealdades religiosas e etnocêntricas. E a estatalidade deficiente de muitos Estados está também na raiz da crise africana.

O facto de os Estados Unidos seguirem uma política de "America First", de protecção das fronteiras e da economia nacional, não deixará de influenciar o resto do continente americano – do Brasil ao México –, confrontado com graves problemas de crime organizado e insegurança urbana.

E as nações europeias terão de rever o processo de integração política forçada e optar por uma qualquer forma de "Europa a la carte" que preserve os benefícios do mercado comum mas que afaste o devaneio federalista.

No ano que agora começa, a realidade e a consequente realpolitik vão impor as suas duras regras às utopias e retóricas optimistas e a política vai reivindicar os seus direitos e libertar-se da subordinação aos determinismos dos mercados e das correções ideológicas. O ano que aí vem, com os seus riscos e perigos, trará também alternativas que, como sempre, encontrarão legitimidade no bem comum e no interesse da comunidade e não nas várias retóricas político--culturais e económicas.

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mais votado Carlos d'Angola 02.01.2017

No mínimo, é a morte da Nova Ordem Mundial de George Bush pai.

comentários mais recentes
Brett Scofield 02.01.2017

Tremendous very informative I love

Carlos d'Angola 02.01.2017

No mínimo, é a morte da Nova Ordem Mundial de George Bush pai.