Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 05 de janeiro de 2017 às 19:53

A pós-sociedade

A sociedade global não tem centro, não tem direcção, nem tem perspectiva. É movimento, desequilíbrio e ultrapassagem. É uma sociedade que evolui além do que nos últimos séculos mais nos marcou.

Trata-se de uma sociedade nova, ainda sem palavras para se descrever a si mesma com rigor.

 

Uma sociedade pós-ocidental, evoluindo sobre a expansão e a distorção de uma cultura de milénios que criou a Europa e os Estados Unidos da América, e que hoje se reconfigura ao longo de novos poderes fácticos, económicos e tecnológicos que emergem para lá do horizonte, a oriente e a sul do que foi o centro do mundo.

 

Uma sociedade pós-democrática, em que a abstenção é crescente há décadas, onde os cidadãos constatam a incapacidade dos Estados em resolver problemas e onde as propostas de fora do sistema político tradicional ganham eleições.

 

Uma sociedade pós-nacional, globalmente integrada, onde o Estado, lutando para sobreviver, vai sendo esvaziado das suas competências a favor de instâncias supranacionais, regionais e locais, e onde o poder vai ganhando traços crescentemente móveis e globais.

 

Uma sociedade pós-literária, intensa e emocional, assente na infinidade de imagens e sons em variação perpétua, longe do mundo sequencial, linear e lógico do alfabeto, da cultura literária e da sociedade industrial.

 

Uma sociedade pós-histórica, assente no eterno retorno da pré-história, que é também o vaguear da visão pelas imagens, longe da escrita e da sua ideia essencial de sequência que alimentou o progresso e que fundou a História, como escreveu Vilém Flusser.

 

Uma sociedade, não apenas pós-verdade, mas também pós-mentira porque a realidade não é mais possível, porque o real é o fluído, o instável e a combinação permanente de imaginação, invenções, erros, interpretações e ignorância, onde é um empreendimento infindável e impossível saber de facto o que é o quê.

 

Uma sociedade pós-media e não uma sociedade mediática; porque a realidade tem hoje natureza mediática e todas as organizações se estão a transformar em organizações de media.

 

Uma sociedade pós-publicidade, em que toda a informação, todas as notícias e todas as comunicações são publicidade.

 

Uma sociedade pós-material, onde a riqueza e o poder se concentram na informação e na comunicação; onde os bens materiais estão em queda e onde o que tem valor não pode ser livremente tomado, como agitadamente descobriu o ladrão da casa luxuosa, no "Cavaleiro de Copas" de Terrence Malick, onde não havia nada para roubar.

 

Uma sociedade não pós-moderna, mas pós-pós-moderna, onde a aldeia global de Marshall McLuhan, o "Ge-stell" de Martin Heidegger, e a hiper-realidade de Jean Baudrillard aconteceram e, face à internet, aos telemóveis, à robótica e à inteligência artificial parecem hoje brincadeiras de criança.

 

Uma sociedade pós-humana, onde cientificamente se investiga a imortalidade, aquela única diferença que segundo Séneca separaria os homens dos deuses.

 

Uma sociedade pós-industrial, pós-capitalista, pós-ideológica, pós-género, uma sociedade pós- tudo. Uma sociedade que não se vislumbra ainda o que virá a ser, mas que se constata todos os dias do que se está a afastar.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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