Jean Pisani-Ferry
Jean Pisani-Ferry 18 de dezembro de 2016 às 20:00

A prevenção da próxima crise da Zona Euro começa agora

Não existem soluções rápidas para os problemas da Zona Euro. Mas uma coisa é clara: a falta de uma verdadeira discussão sobre futuros possíveis é uma séria preocupação.

Os líderes europeus dedicaram pouca atenção ao futuro da Zona Euro desde Julho de 2012, quando Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, se comprometeu a fazer "o que for preciso" para salvar a moeda comum. Durante mais de quatro anos, basicamente subcontrataram a estabilidade e a integridade da Zona Euro aos banqueiros centrais. Mas, embora o BCE tenha realizado o trabalho de forma hábil, este arranjo tranquilo e conveniente está a chegar ao fim, porque nenhum banco central pode resolver enigmas políticos ou constitucionais. Os chefes de Estado e de Governo da Europa seriam prudentes em começar de novo e em considerar opções para o futuro da Zona Euro, em vez de deixarem as circunstâncias decidir por eles.

 

Até agora, os líderes europeus tiveram pouco apetite para tal discussão. Em Junho de 2015, apoiaram apenas por apoiar um relatório sobre o futuro do euro elaborado pelos presidentes das várias instituições europeias. Poucas semanas depois, a questão voltou brevemente à agenda quando os líderes da Zona Euro passaram uma longa noite no final de Julho a discutir se iriam expulsar a Grécia; mas a sua intenção declarada de acompanhar e resolver problemas subjacentes foi de curta duração. Por último, os planos para responder ao choque do Brexit, reforçando a Zona Euro, foram rapidamente descartados, devido ao receio de que a reforma se revelasse demasiado divisiva.

 

A questão, porém, não desapareceu. Embora os anestésicos monetários administrados pelo BCE tenham reduzido as tensões do mercado, o nervosismo voltou a emergir no período que antecedeu o referendo constitucional italiano de 4 de Dezembro. No final de Novembro, os spreads entre a dívida italiana e alemã a dez anos atingiram 200 pontos base, um máximo de 2014.

 

O estado preocupante de vários bancos italianos é uma das razões para a crescente preocupação. O Brexit e a eleição de um presidente norte-americano que defende o americanismo em vez do globalismo e rejeita a UE, acrescenta o risco de os eleitores, em vez dos mercados, porem em causa a integração monetária europeia. Os partidos políticos anti-euro estão a crescer em todos os principais países da Zona Euro, excepto em Espanha. Em Itália, podem muito bem alcançar uma maioria.

 

Na frente económica, a Zona Euro tem muitos processos inacabados. A união bancária, lançada em Junho de 2012 para cortar a interdependência de bancos e estados, tem feito bons progressos, mas ainda não está completa. As diferenças de competitividade entre os membros da Zona Euro decresceram e os desequilíbrios externos diminuíram, mas em grande medida graças à compressão da procura interna no Sul da Europa; os fluxos de poupança de Norte para Sul não retomaram. As disparidades ao nível do desemprego permanecem amplas.

 

A Zona Euro ainda não tem um mecanismo orçamental comum, e a Alemanha rejeitou categoricamente a recente tentativa da Comissão Europeia de promover uma "postura positiva" em países com espaço para aumentar a despesa. É claro que, quando a próxima recessão chegar, a estabilidade orçamental provavelmente ficará em perigo.

 

Por último, a governação da Zona Euro continua excessivamente pesada e tecnocrática. A maioria dos ministros, para não mencionar os legisladores, parece ter-se perdido num pântano processual.

 

Este equilíbrio insatisfatório pode ou não durar, dependendo dos riscos políticos ou financeiros - ou, mais provavelmente, da interacção entre eles. Portanto, a questão agora é como manter uma discussão frutífera para mapear possíveis respostas. Os obstáculos são duplos: primeiro, não há mais nenhum impulso em direcção a "mais Europa"; pelo contrário, uma combinação de cepticismo em relação à Europa e relutância em relação a potenciais transferências constitui um grande obstáculo. E, em segundo lugar, as opiniões sobre a natureza e as causas profundas da crise do euro diferem entre países. Dada a escassez de capital político para gastar em respostas europeias e desacordo sobre qual é o problema e como resolvê-lo, o excesso de cautela dos governos não é surpreendente.

 

Ambos os obstáculos podem ser superados. Para começar, a discussão sobre o futuro da Zona Euro não deve ser enquadrada como conduzindo necessariamente a uma maior integração. O objectivo deve ser fazer com que a Zona Euro funcione, o que pode implicar dar mais poderes ao centro em alguns campos, mas também menos em outros. A responsabilidade orçamental, por exemplo, não deve ser reduzida à aplicação centralizada de um regime comum. É possível conceber um quadro de políticas que incorpore uma abordagem mais descentralizada, capacitando as instituições nacionais a monitorizar o comportamento orçamental e a sustentabilidade orçamental geral.

 

Na verdade, já foram tomados alguns passos neste sentido. Indo mais longe, implicaria tornar os governos individualmente responsáveis pela sua má conduta - ou seja, tornar possível a reestruturação parcial da dívida dentro da Zona Euro. Tal abordagem suscitaria dificuldades significativas, até porque a transição para um regime desse género constituiria uma viagem perigosa; mas opções desse tipo devem fazer parte da discussão.

 

Para superar o segundo obstáculo, a discussão não deve começar por abordar os problemas herdados. Distribuir um fardo entre credores e devedores é inevitavelmente acrimonioso, porque é um jogo de soma zero. A história das relações financeiras internacionais demonstra que tais discussões são inevitavelmente adiadas e necessariamente contraditórias quando ocorrem. Portanto, o problema não deve ser abordado em primeiro lugar. A opção aparentemente realista de começar pelos problemas imediatos antes de abordar questões de longo prazo é apenas superficialmente atractiva. Na realidade, as discussões devem começar pelas características do regime permanente a estabelecer a longo prazo. Os participantes devem explorar opções logicamente coerentes até determinarem se podem concordar com um plano. Só quando houver um acordo sobre o plano para o futuro é que deve ser discutido o caminho para lá chegar.

 

Não existem soluções rápidas para os problemas da Zona Euro. Mas uma coisa é clara: a falta de uma verdadeira discussão sobre futuros possíveis é uma séria preocupação. O silêncio nem sempre é de ouro; pelo bem do futuro da Europa, o silêncio em torno da moeda comum deve ser quebrado o mais rapidamente possível.

 

Jean Pisani-Ferry é professor na Hertie School of Governance em Berlim e comissário-geral da France Stratégie.

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado cesarpalmierimartinsbarbosa 20.12.2016

"Não existem soluções rápidas para os problemas da Zona Euro."
(Jean Pisani-Ferry é professor na Hertie School of Governance em Berlim e comissário-geral da France Stratégie.)
-----------------------------------------------------------------------------------------------
É evidente que existe uma solução rápida para o euro: o colapso total imediato,

Várias causas podem ocasionar o colapso do euro e a dissolução da União Europeia, mas basta a oposição anti União Europeia e anti-euro vencer nas eleições francesas em abril, ou em maio na Alemanha, para tudo se acabar e se resolver imediatamente essa criese da União Europeia. Todavia, a União Europeia ainda não colapsou, e, apesar di pessimismo actual, é possível que supere essas ameaças e se restabeleça mais forte do que antes.

Não nos é possível prever o futuro.

comentários mais recentes
cesarpalmierimartinsbarbosa 20.12.2016

"Não existem soluções rápidas para os problemas da Zona Euro."
(Jean Pisani-Ferry é professor na Hertie School of Governance em Berlim e comissário-geral da France Stratégie.)
-----------------------------------------------------------------------------------------------
É evidente que existe uma solução rápida para o euro: o colapso total imediato,

Várias causas podem ocasionar o colapso do euro e a dissolução da União Europeia, mas basta a oposição anti União Europeia e anti-euro vencer nas eleições francesas em abril, ou em maio na Alemanha, para tudo se acabar e se resolver imediatamente essa criese da União Europeia. Todavia, a União Europeia ainda não colapsou, e, apesar di pessimismo actual, é possível que supere essas ameaças e se restabeleça mais forte do que antes.

Não nos é possível prever o futuro.