Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 04 de dezembro de 2016 às 19:35

A propósito da política de António Domingues

Não resolvem. O maior dano à economia é feito pela recusa sistemática em assumir a situação como ela é - esperemos que Paulo Macedo e o próximo regulador do sector signifiquem uma nova linha.

1. Há leituras a evitar antes de dormir. O mais recente Relatório de Estabilidade Financeira publicado há dias pelo Banco de Portugal é dessas leituras que assusta. A palavra "vulnerabilidade", que em mais do que uma página parece um eufemismo, aparece 44 vezes para descrever o que pesa sobre a estabilidade financeira do país: mais do dobro das 20 vezes em que figura no mesmo relatório em 2007, véspera do pico da crise global. Ali, entre o desfiar metódico das vulnerabilidades da segunda banca mais descapitalizada da Zona Euro, dá-se destaque a uma das principais: os créditos problemáticos concedidos pela banca às empresas.

2. Diz o Banco de Portugal, preto no branco, que "o risco para a estabilidade financeira [do país] associado à exposição do sector financeiro a estas empresas mantém-se elevado, tendo em conta o montante do seu incumprimento". Em Junho de 2016, quase um terço (!) das empresas devedoras tinha créditos vencidos à banca - estamos a falar de quase 13 mil milhões de euros nos balanços dos bancos (fora os particulares). Estes créditos destroem rendibilidade, consomem capital e minam a capacidade de financiamento dos bancos. São um peso para a economia e, é bom repetir, "um risco elevado" para a estabilidade financeira.

 

3. Mas recuemos um ano e a outras leituras más para o estômago. Em Agosto de 2015, numa entrevista ao extinto Diário Económico, Albert Jager avisava que num conjunto grande de empresas pouco produtivas e sobreendividadas em Portugal "muitas vão ter de fechar". Estas empresas a que o ex-representante permanente do FMI em Portugal se refere valem, na sua estimativa, cerca de 20% do emprego no país: são 900 mil postos de trabalho. Não arrisco muito se disser que estas empresas são, em boa parte, as mesmas de que fala o Banco de Portugal. São de todos os tamanhos, com um peso grande de construtoras e de negócios do comércio: os esmagados pela perda de financiamento do país e pela compressão da procura nos anos da troika.

 

4. Em teoria, o preço para a economia e o emprego decorrente da limpeza dos balanços da banca não teria de ser tão alto - isto se os instrumentos de reestruturação e falência funcionassem melhor e se a mentalidade de empresários e gestores da banca fosse outra. Mas não é. Esta é uma das razões de carácter político que motiva o "empurrar com a barriga dos problemas da banca". Outra é o lóbi, feito num país pequeno, de pessoas influentes oriundas de grupos que sobrevivem pendurados na banca. E outra é a resistência dos próprios accionistas dos bancos: reconhecer perdas significa ter de aumentar capital ou perder controlo.

 

5. Vem isto a propósito da Caixa Geral de Depósitos e da política de António Domingues: aumentar as imparidades, recapitalizar e depois gerir. Este rumo tinha poucos amigos fora do círculo de Domingues: porque a Caixa, o banco público e maior instituição financeira do país, apertaria as garantias e o crédito de amigos de políticos; porque iria cair mais em cima dos devedores empresariais; porque os bancos com operações em comum com a Caixa iriam ser pressionados pela regulação para fazerem o mesmo, ampliando o efeito; porque o impacto na economia poderia ser mau antes de ser bom. Domingues não caiu por casa disto, mas estas resistências fizeram-se sentir. O problema é que a banca já teve demasiado tempo para esperar que o tempo resolva as coisas por si. Não resolvem. O maior dano à economia é feito pela recusa sistemática em assumir a situação como ela é - esperemos que Paulo Macedo e o próximo regulador do sector signifiquem uma nova linha.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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