Teresa Damásio
Teresa Damásio 01 de fevereiro de 2018 às 22:34

A qualificação dos portugueses e o trabalho digno

Ou seja, o desemprego juvenil atinge no nosso país um nível alto e desalinhado, ou não, com a reforma que se tem vindo a fazer no ensino nas últimas décadas.

O INE publicou os números do desemprego em que foi atingida a percentagem mais baixa desde 2004(1). Tal dado deve deixar-nos a todos muito satisfeitos pois significa que Portugal cresceu e que houve, de facto, um desenvolvimento sustentável que teve como consequência o aumento do emprego. E, quando comparamos com os dados publicados pelo Eurostat, no passado dia 31 de janeiro, percebemos que estamos abaixo da média europeia(2) o que representa efetivamente uma ótima performance da economia portuguesa.

 

No entanto, quando observamos detalhadamente o impacto deste incremento dos postos de trabalho nos vários indicadores (população empregada e taxa de emprego – sexo e grupo etário) verificamos que continuam a ser os jovens os mais atingidos pelo desemprego. Ou seja, o desemprego juvenil atinge no nosso país um nível alto e desalinhado, ou não, com a reforma que se tem vindo a fazer no rnsino nas últimas décadas.

 

Senão vejamos: a crer no que foi feito no ensino superior(3), assim como, a melhoria do ensino não superior(4) deveria ter tido como efeito a proliferação de emprego para todos os jovens que terminassem o ensino profissional e o ensino superior.

 

Mas verificamos que tal não sucede. Como tal, importa analisar o porquê desta taxa de desemprego jovem.

 

Em primeiro lugar, afigura-se estranho que todos saibamos que há áreas em que faltam trabalhadores(5) e que não se consiga aumentar o emprego nessas áreas.

 

Por outro lado, é unânime que uma experiência internacional é fundamental no currículo tanto do aluno do ensino secundário como do ensino superior e Portugal também tem dado passos significativos nesse domínio ao terem as instituições de ensino aderido de forma satisfatória ao Programa ERASMUS + e termos conseguido uma taxa razoável de percursos transnacionais junto da nossa população académica.

 

A adicionar a isto, percebemos, igualmente, que há a necessidade dum conjunto vasto de novas qualificações (tanto ao nível do ensino profissional como do ensino superior) e que a criação destas áreas inovadoras não está a merecer o olhar adequado por parte da sociedade civil.

 

No cômputo global do sistema educativo, todos têm sido relevantes para o aumento das qualificações das portuguesas e dos portugueses. No entanto, a melhoria significativa que temos assistido nos últimos anos não está a conseguir ter efeito no mercado de trabalho, nem no aumento do trabalho digno. O que é uma contradição de acordo com a Organização Mundial do Trabalho e com a OCDE que nos dizem que uma população qualificada automaticamente acede a empregos estáveis e a salários condignos.

 

Mas, temos de nos perguntar o que é hoje o trabalho digno. É o mesmo do pós-revolução industrial ou do pós II-Guerra Mundial?

 

Não deverá haver uma alteração na tipologia das profissões e uma profunda restruturação do mercado de trabalho de forma a darmos resposta àquilo que em Davos foi dito de os nossos jovens estarem a estudar e a preparem-se para entrar num mercado onde 65% das profissões serão novas?

Onde está a criatividade e a inovação no nosso mercado de trabalho e no nosso sistema educativo?

 

São as respostas a todas estas perguntas que teremos de encontrar com urgência por forma a conseguirmos manter a equação de mais qualificações = trabalho + digno.

 

(1)A taxa de desemprego de novembro de 2017 situou-se em 8,1%, menos 0,3 pontos percentuais (p.p.) do que no mês anterior e menos 0,6 p.p. em relação a três meses antes. Aquele valor representa uma revisão de menos 0,1 p.p. face à estimativa provisória divulgada há um mês e ter-se-á de recuar até novembro de 2004 para encontrar uma taxa tão baixa quanto esta. In:

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=281091901&DESTAQUESmodo=2

 

(2)The euro area (EA19) seasonally-adjusted unemployment rate was 8.7% in December 2017. In: http://ec.europa.eu/eurostat/documents/2995521/8631691/3-31012018-BP-EN.pdf/bdc1dbf2-6511-4dc5-ac90-dbadee96f5fb

 

(3)A implementação da Declaração de Bolonha foi das maiores reorganizações que se fez em Portugal e nos restantes Estados-membros no final da década de noventa do século passado e com repercussões na atualidade e para as gerações vindouras.

 

(4)Com o alargamento da escolaridade obrigatória e a restruturação da Rede do Pré-Escolar, bem como, o Projeto da Autonomia e da Flexibilidade Curricular.

 

(5)Na área da Engenharia Metalúrgica e do Turismo, entre outras.

 

Administradora do ISG | Instituto Superior de Gestão e do Grupo Ensinus

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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