José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 05 de junho de 2017 às 20:20

A racionalidade de Trump e Merkel

As eleições e a popularidade em democracia não se ganham no plano da racionalidade, mas no da emoção. Trump sabe-o, mas Merkel também.

A FRASE...

 

"Trump escreve no Twitter: temos um défice externo massivo com a Alemanha, para além de que eles pagam muito menos do que deviam para a OTAN. Muito mau para os EUA. Isto vai mudar."

 

Reuters News, 30 de maio de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Num discurso recente, Angela Merkel reagiu com rispidez às investidas de Donald Trump sobre o comércio internacional, a OTAN e o Acordo de Paris. Como ser anti-Trump está na moda e as eleições estão à porta, a chanceler aproveitou para assumir uma posição de força para eleitor alemão ver. Tenho dúvidas se a orientação de confronto com os EUA é a mais ajuizada para uma Europa com manifesta dificuldade em se coordenar em matérias de política externa e de defesa.

 

Como quase em tudo o que diz, Trump peca mais pela forma do que pela substância. Na questão do comércio externo, não é segredo que a Alemanha tem excedentes crónicos. Ora, num mundo paradoxalmente globalizado e neomercantilista isso é um problema de acordo com muita gente, inclusive na Europa. No que respeita à OTAN, será que faz sentido manter uma organização três décadas depois da extinção da sua "raison d'être"? Será credível considerar que a Rússia vai invadir a Polónia? Finalmente, a questão do clima. O Nobel da economia e psicólogo, Daniel Kahneman, mostrou na passada década de 70 que toda a gente, incluindo os cientistas, tende a tirar conclusões a partir de informação demasiado escassa. Em traços simples, esta é a abordagem de Trump à questão das alterações climáticas: a evidência que sustenta a tese do aquecimento global é demasiado escassa e circunstancial. Esta é uma posição polémica, mas não disparatada. É claro que tudo isto seria um debate académico se não tivesse custos económicos significativos.

 

Daniel Kahneman também demonstrou que a premissa de racionalidade dos agentes que subjaz aos modelos económicos não é válida - outras contas se intrometem nas decisões das pessoas. Na política não é diferente. As eleições e a popularidade em democracia não se ganham no plano da racionalidade, mas no da emoção. Trump sabe-o, mas Merkel também. É deste palanque que se deve observar o foguetório entre os dois.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo 06.06.2017

Bom artigo, embora ache que o aquecimento global é indiscutível embora as suas causas não estejam determinadas nem sequer de forma aproximada. Gostei bastante do resto.

5640533 05.06.2017

Ninguem sabe o que vai fazer a Russia.

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