Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 06 de Dezembro de 2016 às 20:35

A religião da dívida

No congresso do último fim-de-semana, o PCP insistiu na sua tese de que Portugal, de uma forma mais ou menos negociada, deve repudiar parte da dívida pública. O que dá razão à qualificação popular do comunismo como uma religião.

Tocqueville, que admirava na democracia americana a religiosidade dos seus políticos, dizia que quem acredita que a recompensa da vida terrena só nos espera na vida além da morte é alguém que tenderá a pensar as políticas consoante os efeitos estruturais e de longo prazo, não segundo as suas contrapartidas imediatas.

 

No PCP, que também se define pela demanda de um futuro longínquo, passa-se algo semelhante. Com uma diferença: como há séculos que o capitalismo insiste em não ser derrubado pelas suas "contradições internas", a esperança dos comunistas portugueses nos "amanhãs que cantam" já é mais uma melancolia inconsequente do que um programa. É por isso que o PCP, ao mesmo tempo que diz não haver futuro com esta dívida pública, apoia um Governo do PS que jamais tomará uma iniciativa sobre o assunto. Não é para esta vida que os nossos comunistas trabalham.

 

Diga-se em abono da verdade que saber o que o PS pensa realmente sobre a questão da dívida requer um esforço bíblico de exegese. Dos socialistas têm vindo posições bastante diferentes, consoante a circunstância política. Talvez o PCP veja nessa relação sinuosa e oportunista com o tema uma abertura para os seus próprios aventureirismos.

 

Até 2011, o PS defendia que a dívida pública era por natureza virtuosa e sustentável. Só por um atavismo salazarento se podia dizer o contrário. Basta lembrar a campanha para as legislativas de 2009 e como José Sócrates respondia aos alertas da oposição de direita sobre os riscos do excesso de endividamento (em especial a forma reles com que destratava Manuela Ferreira Leite).

 

Com a chegada da troika e do Governo PSD-CDS, o PS, numa espécie de epifania, passou a achar finalmente que a dívida pública portuguesa é um problema. Escreveram-se manifestos, conspicuamente assinados por notáveis dirigentes e apoiantes socialistas, e andou-se quatro anos a defender que o crescimento do peso da dívida no PIB do país era um dos grandes falhanços da liderança de Passos Coelho.

 

Foi uma estratégia mentirosa, emblemática do que entretanto se começou a chamar de "política da pós-verdade". O aumento da dívida não foi culpa da "austeridade", mas da ameaça de bancarrota a que o PS conduziu Portugal - com o inevitável resgate, os seus efeitos recessivos, o empréstimo de emergência e a obrigação de inclusão das empresas públicas e das PPP no perímetro da dívida. Para além disso, uma vez que a dívida é uma realidade dinâmica, antes de começar a regredir o seu crescimento teria necessariamente de abrandar. E foi ainda durante o anterior Governo que a dívida começou, de facto, a regredir.

 

Seja como for, esta preocupação com o assunto já era um avanço saudável relativamente ao keynesianismo desregrado do passado. E um avanço do qual, aliás, corremos o perigo de ainda vir a ter saudades, já que com o actual Governo o peso da dívida no PIB voltou a crescer para níveis recorde.

 

Ou seja, voltámos ao antigamente, ao PS pré-2011, que exerce o poder afundando o país em dívida e que parece acreditar que esta é eternamente gerível, que a disponibilidade dos credores é eterna e que o dinheiro cai do céu. Vendo bem, também é uma forma de religião.

 

Advogado

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Miguel Há 1 semana

Acefaclia partidaria. Para renegociar as condições de empréstimo de compra de casa, da taxa de juro do cartão de credito ou das condições de compra do carro em leasing, não ha problema e todos veem isso como um processo "normal"! Mas se for renegociar as taxas de juro da divida nacional não podemos

Anónimo Há 1 semana


FIDEL - O HERÓI DA ESQUERDA NÃO PASSA DE UM RELES CRIMINOSO.

- Mandou matar mais de 9000 cubanos (que se saiba).

- Roubou mais de 900 milhões de dólares ao povo cubano, para a sua fortuna pessoal e da família (que se saiba).


jorge Há 1 semana

Felizmente que aqui nunca tivemos socialismo. Falou sempre a democracia. Porque somos os mais pobres da Europa não é fácil explicar. Eu acho que é por termos 9% de comunas!

Anónimo Há 1 semana

Os idiotas úteis dos eleitores do PCParvo e do BEsterco não compreenderão nunca a verdade porque o seu voto está à venda e foi comprado por estes partidos antidemocráticos...

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