Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de julho de 2017 às 19:30

A remodelação e a paciência 

Nestes tempos muito rápidos de exigências curtas e respostas rápidas, a paciência, na política, é uma virtude escassa. Os desafios obrigam a respostas velozes e claras. Estilo Speedy Gonzalez.

Pedrógão e Tancos parecem agora dormentes neste Verão político, anestesiados pelas férias, mas o seu efeito no inconsciente dos portugueses não se evaporou. Com uma tempestade inesperada voltará a surgir no ar a ideia de que o Estado é uma república das bananas e os serviços públicos são verdadeiros Hércules com pés de barro. Uma qualquer crise política poderá reaparecer, não como farsa, mas como um raio mortal. E aí a paciência nacional, alimentada com as notícias felizes da economia e das finanças, poderá desintegrar-se. A paciência e a esperança são irmãs de sangue. Pode-se esperar, pode aceitar-se o sacrifício, mas aguarda-se uma recompensa amanhã. Mas a paciência esgota-se facilmente, especialmente se se sente que o Estado está constipado, as desculpas são esfarrapadas, e as vitórias no combate contra o défice (indo além do que a União Europeia ou o FMI esperavam) fazem muito sucesso lá fora, mas não resolvem internamente a insatisfação com os serviços públicos.

 

Jean-Jacques Rousseau dizia que "a paciência é amarga, mas os seus frutos são doces". Serão, se a paciência não for doseada com esperança. O soporífero dos défices mais pequenos do que o esperado não resiste a crises como Tancos ou Pedrógão. Fica a bailar no subconsciente. Porque é que se poupa tanto se, depois, se mostra que há serviços públicos que parecem maltrapilhos? António Costa pode, bondosamente, manter um ministro inepto como Azeredo Lopes. É um gesto de caridade e de defesa do músculo governativo. Mas ninguém perdoará uma segunda vez se os serviços públicos mostrarem incompetência como em Pedrógão ou em Tancos em troca de números bonitos apresentados por Mário Centeno. Este será um debate interessante para os tempos do OE de 2018. A reacção negativa às dietas excessivas é inflamável. E o Governo deve estar ciente dessa combustão temível.

 

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