Marina Costa  Lobo
Marina Costa Lobo 03 de março de 2011 às 11:34

A resistência de Sócrates serve Portugal

Num artigo do "Financial Times" desta semana, Paulo Rangel e Marques Mendes são citados como sendo a favor de que Portugal peça ajuda externa o mais rapidamente possível.
Parece que as coisas se perspectivam mais ou menos assim, para alguns dirigentes do PSD: Portugal é forçado a pedir apoio maciço externo, reconhecendo de uma vez por todas que as taxas de juro da divida pública são incomportáveis. Imediatamente o Presidente da República convoca eleições, que o PS vai perder e o PSD vai ganhar, quem sabe até com maioria absoluta. Haverá lugares para "boys" e "girls" que estão fora do poder há anos. E o principal problema de Portugal, isto é, o facto de termos um governo liderado por José Sócrates, ficará resolvido. Vamos todos à nossa vida renovados, com o sol a brilhar e os horizontes largos. A cereja em cima do bolo será que o PSD poderá enquanto governo responsabilizar o PS, a Angela Merkel, a Comissão Europeia, ou o Jean-Claude Trichet, à vez, por tudo o que de medidas de austeridade tiverem que ser tomadas durante toda a legislatura.

Infelizmente, esta atitude tão "blasé" do PSD em relação à inevitabilidade da ajuda externa é contrária aos interesses do País. A ideia de que uma intervenção externa igual à da Grécia e Irlanda pode ser benéfica para Portugal já foi desconstruída várias vezes. Desde logo, pelo que está a acontecer naqueles dois países: desde que solicitaram ajuda as taxas de juro associadas às suas dívidas públicas não desceram. Pelo contrário. Actualmente os mercados estão interessados em testar a solidez do euro. O que está em causa é a própria sobrevivência da moeda única.

Se houver ajuda externa nos mesmos moldes que na Grécia e na Irlanda, haverá sérios efeitos económicos, como tão bem explicou Pedro Santos Guerreiro no editorial de quarta-feira deste jornal. A começar pela fuga de capitais que afectará os bancos, mas não só. Haverá também gravíssimos efeitos políticos, que atingirão não apenas o PS mas toda a classe política com responsabilidades governativas desde a entrada de Portugal na UE. A crise de soberania política que se abaterá sobre nós fará alicerces em cima de um fosso crescente que existe e tem vindo a agravar-se desde 2003 entre políticos e cidadãos. Por isso, esta ânsia do PSD em derrubar Sócrates, ao ponto de abrir os braços a uma ajuda externa maciça é um bocadinho como aqueles que apoiaram a guerra no Iraque porque serviu para tirar o Saddam do poder.

Ao longo dos últimos meses, José Sócrates e Teixeira dos Santos têm feito bem em resistir às supostas evidências de necessidade de recurso à ajuda externa invocadas por um coro de operadores económicos, muitas vezes anónimos, e agora pelo PSD. Sócrates será teimoso, mas a sua resistência tem objectivos políticos reais. Porque enquanto Portugal tem resistido, a conjuntura e a forma de auxílio a Portugal tem-se tornado ligeiramente mais favorável.

De facto, essa resistência já deu frutos. Quais? Bem, tem servido para que a Europa - e sobretudo a Alemanha - dêem passos no sentido de assumirem esta crise como uma crise do euro, e não uma crise dos "gastadores do Sul". Temos de assumir as nossas responsabilidades no que respeita ao défice orçamental, mas não somos responsáveis pela vontade que alguns operadores de mercado têm de testar a solidez da moeda europeia. No momento que escrevo, Sócrates e Merkel reúnem para decidir se vai ou não haver uma possibilidade de acesso a uma linha de crédito europeia, sem necessidade de recurso a ajudas maciças, desde que o País se comprometa com objectivos de redução de défice e de reformas. Seria um bom compromisso.

Visto desta perspectiva, o PSD não deveria fazer mais do que colocar-se responsavelmente na oposição, tal como sugere Pacheco Pereira numa entrevista desta semana honrando os seus compromissos tanto orçamentais como do PEC I e PEC II. E apoiando patrioticamente os esforços do Governo em negociar na UE um acordo que impeça que Portugal sirva como mero "firewall" de Espanha, essa sim o verdadeiro teste à solidez do euro. Neste momento, tempo é dinheiro e mais do que isso. Tempo é soberania.


Politóloga
marinacosta.lobo@gmail.com
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mais votado jupiter2001 03.03.2011

A resistência de Sócrates serve unicamente para se proteger a ele próprio e as empresas mafiosas que, na sombra, efectivamente mandam no país. O FMI ia esmiuçar muitas contas que não interessa explicar.

comentários mais recentes
csnel 06.03.2011

E isso mesmo que os Portugueses devem perceber, nada mais!

Obrigado por esse artigo!

fpaulomagalhaes 04.03.2011

Excelente artigo. Parabéns.....O PSD apenas substituirá o PS e os seus boys. Anseiam há anos pelo poder, mas se confio pouco em Sócrates, muito menos confio em Pedro Passos Coelho. E essas sanguessugas que pugnam pela entrada do FMI só o fazem por interesses pessoais, aliás como toda a classe política nacional. Sócrates ainda é patriota, mas a maioria só pensa em si...e o PSD não é melhor do que o PS neste aspecto. A intervenção externa conduz a uma crise política com cosnequências graves na nossa economia. Sai PS, entra PSD, substituem-se os boys mas a economia tenderá a piorar. Já muito pouco está nas nossas mãos. Tudo está nas mão do monstro UE e dos especuladores. A unica asneira do Sócrates e do fantoche do ministro das finanças foi deixarem o défice pular quase até aos 10 % em 2009. Isso é imperdoável pois deixaram-se levar numa atitude muito pouco inteligente, pelo histerismo da suposta maior depressão desde 1929. Como vemos, tudo não passou de um histerismo sem fundamento, como tantos outros. Agora nós portugueses é que estamos a pagar essa crise na realidade....

fpaulomagalhaes 04.03.2011

Excelente artigo. Parabéns.....O PSD apenas substituirá o PS e os seus boys. Anseiam há anos pelo poder, mas se confio pouco em Sócrates, muito menos confio em Pedro Passos Coelho. E essas sanguessugas que pugnam pela entrada do FMI só o fazem por interesses pessoais, aliás como toda a classe política nacional. Sócrates ainda é patriota, mas a maioria só pensa em si...e o PSD não é melhor do que o PS neste aspecto. A intervenção externa conduz a uma crise política com cosnequências graves na nossa economia. Sai PS, entra PSD, substituem-se os boys mas a economia tenderá a piorar. Já muito pouco está nas nossas mãos. Tudo está nas mão do monstro UE e dos especuladores. A unica asneira do Sócrates e do fantoche do ministro das finanças foi deixarem o défice pular quase até aos 10 % em 2009. Isso é imperdoável pois deixaram-se levar numa atitude muito pouco inteligente, pelo histerismo da suposta maior depressão desde 1929. Como vemos, tudo não passou de um histerismo sem fundamento, como tantos outros. Agora nós portugueses é que estamos a pagar essa crise na realidade....

asdrubalinho 04.03.2011

Sócrates assassinou a esperança de muitos milhares de Portugueses que partem todos os dias para longe de Portugal, e como a esperança é a última a morrer o assunto é grave. No bando de criminosos podemos incluir outros governantes do passado e actuais, podem vir as Marinas, os Queridos, os Frasquilhos, os Pedros e outros comentadores pagos, dar e debitar os números dos Institutos e as linhas das agências de informação, comodamente sentados nos seus gabinetes, mas a realidade é dura e indesmentível!!!

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