Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 01 de junho de 2017 às 20:46

A revolução inédita (e um pouco assustadora) no imobiliário

A revolução no preço das casas, motivo de alegria para uns e de preocupação para outros, é assunto quente de conversa. Pudera.

O valor de oferta médio por metro quadrado nos últimos três meses do ano passado em Lisboa era de 3.695 euros - no segundo trimestre de 2008, antes do pico da crise financeira mundial, estava abaixo de 2.500 euros. No Porto, a história tem contornos semelhantes, embora menos exuberantes. Todos ouvimos histórias de vendas pelo dobro, de rendas exorbitantes, de prédios inteiros com estrangeiros, de pessoas a comprarem na periferia. Como chegámos aqui?

 

Se quisermos contar a história desde o início podemos dizer que estamos a colher o que semeámos: os programas de atracção de investimento estrangeiro puseram Portugal no mapa dos investidores ao mesmo tempo que o turismo português se esforçou para quebrar a imagem tradicional de "sol e praia". Quando a instabilidade atacou outras paragens, Portugal capitalizou muito - e com as pessoas veio o dinheiro para as casas. Em 2016, os estrangeiros investiram 6,2 mil milhões de euros em imobiliário, mais 50% do que em 2014 - aqui encontram segurança, hospitalidade, preços ainda comportáveis e um património desenterrado pela nova lei do arrendamento.

 

Mas há mais: uma inovação tecnológica que possibilita a um proprietário pôr a sua casa a comunicar com o mundo e servir o turismo; uma banca que oferece taxas de juro quase nulas e que, depois de escândalos vários, incentiva quem tem dinheiro a procurar alternativas; uma cultura nacional de investimento virada para o imobiliário. Tudo isto leva muitos portugueses a reagirem (como conto no tema de capa da Sábado desta semana): vendem para encaixar a mais-valia ou trocar para melhor, compram (no centro ou na periferia) porque não sabem que renda vão ter quando o contrato expirar. É um rolo que está a auto-alimentar-se.

 

Este é um "boom" inédito: é a primeira vez que partes inteiras do mercado se desligam da economia doméstica, como é a primeira vez que a expansão tem o foco na reabilitação de casas usadas no centro das cidades. Uma boa parte da mudança é estrutural (salvo algum acontecimento catastrófico). Mas há uma parte, contudo, que cheira a sobreaquecimento. São subidas muito grandes em tão pouco tempo. Seja no controlo desta frente de risco económico, ou na gestão do impacto na demografia de Lisboa e do Porto, está aqui um desafio para a política pública e municipal - e um tema central óbvio para a campanha das autárquicas este ano nas duas maiores cidades do país.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Anónimo 04.06.2017

Pois os estrangeiros sao os responsaveis pelo RENASCIMENTO da economia portuguesa.
Um centro historio que era podre e decadente - Lisboa e Porto, agora com outra roupa. E estamos achando ruim? Quem acha isso ruim deve ser um daqueles com muita inveja...afinal...inveja aqui e o que nao falta...

surpreso 02.06.2017

Espero grandes estoiros ,porque o "novo alojamento" é de oportunistas ,que fogem aos impostos e se estão lascando posra os outros

Mr.Tuga 02.06.2017

Pois....
E até a classe média alta é expulsa para os bairradas das periferias.....

TugaLândia PARAISO para estrajas! INFERNO para os tugas pagantes de taxas e impostos....

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