André  Veríssimo
André Veríssimo 01 de setembro de 2017 às 09:58

A revolução, segundo Cavaco Silva

Cavaco voltou", diz o Cravo. "Sim, eu senti a trovoada", responde a Ferradura no cartoon de José Bandeira no DN. Se a ideia era regressar com estrondo, o ex-Presidente conseguiu-o com a sua prestação na universidade de Verão do PSD. Pôs todos a falar dele.

O antigo presidente veio dizer que na Zona Euro "a realidade tira sempre o tapete à ideologia", como quem tivesse descoberto a pólvora. O primeiro-ministro achou, e bem, não comentar a substância do discurso, com uma excepção, para dizer que faz parte há muitos anos de um partido "que sempre foi reformista e não iniciou nenhuma revolução". A revolução socialista que Cavaco Silva dizia que era preciso travar, e a que voltou a aludir, nunca o PS a pediu... Nem PCP e Bloco a exigiram para apoiar o Governo. Mas para o antigo presidente foi a realidade que a travou...

As farpas mais agudas foram para o seu sucessor. Marcelo optou por responder também indirectamente: "Se os sucessivos Presidentes da República não têm respeito naquilo que dizem uns dos outros em termos de forma e conteúdo, acabam por não se fazerem respeitar pelo povo". É duvidoso que a intervenção de Cavaco tenha granjeado respeito sem ser junto da minoria que ainda se revê no seu discurso.

Pedro Filipe Soares fala no DN de Cavaco Silva como uma "assombração de Verão". "Vencido, mas não convencido, Cavaco Silva nunca se conformou com o desfecho. (...) O pio do professor é de ave de mau agoiro. Falhou o prognóstico tremendista e agora quer emendar a mão, ensaiando mais uma crítica que não bate certo: não houve uma revolução socialista em Portugal, apenas a demonstração de como era possível parar a austeridade". Não que o Bloco desgoste da ideia. Mas não foi por aí.

Projectando apenas ressabiamento, Cavaco Silva fica a pregar no deserto. Como escreve David Dinis, no Público, "o país bem precisava de uma discussão séria sobre o seu futuro. Séria, despartidarizada, desinteressada. Cavaco Silva podia ter tido esse papel. Infelizmente, assim ninguém o ouvirá".
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