João Costa Pinto
João Costa Pinto 30 de janeiro de 2018 às 20:57

A situação do Montepio - (II)

Além do esforço de regeneração do balanço que a caixa económica tem vindo a prosseguir, é crucial consolidar a situação patrimonial e as condições de exploração da associação mutualista.

1. No último artigo referi que, além da destruição de capital mutualista, provocada pelas perdas acumuladas na actividade bancária, o Grupo Montepio enfrentava um enfraquecimento do seu modelo de negócio. Considero esta última questão central, na medida em que condiciona não só o futuro desta importante instituição, como o próprio preço de entrada de novos accionistas no capital da caixa económica. Para o compreender há que ter presente as características essenciais do modelo de negócio deste grupo.

 

Ao controlar simultaneamente a associação mutualista e a caixa económica, a gestão explorou um modelo de "negócio circular" em torno destas duas instituições. Colocava dívida emitida pela associação através da rede da caixa, decidindo tanto o programa de emissões, como as condições de colocação da liquidez obtida. Deste modo desenvolveu um potente modelo de negócios, cuja "legitimidade" depende da observância de dois pressupostos: por um lado, tem de assegurar que os aforradores/investidores têm a percepção da natureza do risco que assumem ao adquirir dívida da associação. Está sobretudo em causa a distinção entre esta e os depósitos cobertos pelo Fundo de Garantia; por outro lado, tem de preservar a autonomia da associação mutualista, em relação a decisões que afectem o seu balanço e as suas condições de exploração. Trata-se aqui de garantir que é a associação que decide sobre o nível de risco e de liquidez, bem como de remuneração das aplicações/investimentos dos recursos financeiros que obtém com a colocação da sua dívida. Pressupostos que não podem ser garantidos por uma gestão conjunta, situação que, enquanto se manteve, teve consequências a dois níveis: contribuiu para o enraizamento de uma cultura comercial que valorizava sobretudo a "marca Montepio", independentemente da origem - associação mutualista ou caixa económica - dos produtos colocados nos clientes. O que, por sua vez, ajudou a fortalecer a imagem de mercado do grupo nos mais importantes centros urbanos; além disso, impulsionou a expansão do grupo e um crescimento relativamente rápido do seu balanço, embora com uma acumulação excessiva de risco no balanço da caixa económica e através desta no da associação mutualista.

 

2. À luz do que acabei de referir, permaneço convencido de que o futuro deste grupo deve passar pela preservação da sua imagem de marca, enquanto importante instituição mutualista com a sua dupla vertente - associação mutualista e caixa económica. A observância dos dois pressupostos indicados não implica, necessariamente, um "corte" entre as duas instituições em termos de articulação técnico-operacional e comercial. Pelo contrário, tal "corte", a acontecer, conduziria a uma inevitável perda de valor com consequências imprevisíveis. Para o compreender basta ter presente o grau de interpenetração comercial e financeira existente entre as duas instituições. Além do esforço de regeneração do balanço que a caixa económica tem vindo a prosseguir, é crucial consolidar a situação patrimonial e as condições de exploração da associação mutualista. A natureza e a estrutura temporal, tanto do passivo como do activo da associação, aconselham a elaboração de um programa a prazo capaz de enquadrar e de orientar a sua actividade e de controlar a evolução do seu balanço (*).

 

Questões para outro dia. 

 

(*) Como se sabe, não são conhecidas contas consolidadas actualizadas para o grupo, o que naturalmente não facilita uma avaliação objectiva da sua situação patrimonial global.

 

Economista

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