João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 15 de fevereiro de 2017 às 20:40

A sombra de Nixon paira sobre Trump  

Agora, os políticos são outros, mas o enredo tem similitudes e basta isso para comprometer de forma muito perigosa a Casa Branca e a capacidade de resposta dos Estados Unidos às crises que se avolumam.

Nos idos de Dezembro, em conversas telefónicas com o embaixador russo em Washington, Michael Flynn, assessor do recém-eleito Donald Trump, referiu que o sucessor de Obama poderia adoptar uma atitude mais conciliadora face ao Kremlin, admitindo o levantamento de sanções impostas pela administração democrata.

 

Depois, Putin, em atitude inédita e contra a recomendação pública (encenada ou não) do seu ministro dos negócios estrangeiros Sergei Lavrov, não retaliou contra a expulsão a 29 de Dezembro de 35 diplomatas por alegadas espionagem electrónica e interferência russa na campanha eleitoral em prejuízo de Hillary Clinton.

 

Ganhou, assim, ainda mais força a tese, defendida por Flynn, antigo responsável pelos serviços de informação militares entre 2012 e 2014 e primeiro general na reserva de relevo a apoiar Trump, de que Moscovo poderia ser aliado relevante na luta contra o terrorismo islâmico.

 

O abandono das sanções impostas em 2014 após a invasão da Ucrânia e anexação da Crimeia era, também, matéria negociável num acordo com Moscovo, a crer nas declarações públicas de Trump.

 

Flynn, que estaria a par das escutas por agências de informação norte-americanas das chamadas telefónicas do embaixador Sergei Kisliak, afirmaria, contudo, publicamente não ter abordado a questão das sanções com o diplomata mesmo depois de funcionários ligados à administração Obama terem revelado a Trump o teor das conversas.

 

O Logan Act, lei que data de 1799, revista em 1994, penaliza até um máximo de três anos de prisão cidadãos não mandatados pelo executivo que levem a cabo negociações diplomáticas com países envolvidos em disputas com os Estados Unidos e, apesar de nunca ter sido aplicada, bastaria para colocar Flynn em apuros. 

 

O Presidente, não obstante antecedentes controversos de Flynn, como a participação paga em eventos do canal televisivo estatal russo dirigido a públicos anglófonos RT, nomeou-o conselheiro nacional de segurança, ignorando a controvérsia sobre negócios pessoais e tratos menos recomendáveis com o Kremlin.

 

As acirradas lutas de poder na Casa Branca, as pressões de republicanos e democratas no Congresso, e os interesses de altos escalões da burocracia civil e militar têm vindo a alimentar um fluxo inaudito, crescente e absurdo de fugas de informação.

 

Somaram-se a isso afirmações falsas e contraditórias para ditar a desgraça de Flynn depois de o próprio vice-presidente Mike Pence exigir a cabeça do conselheiro.

 

O envolvimento de Trump no trato equívoco de Flynn com Kisliak é, por outro lado, ouro sobre azul para os opositores do Presidente que vislumbram similitudes comprometedoras com a iniciativa sigilosa de Richard Nixon na campanha eleitoral contra Hubert Humphrey em 1968 para os sul-vietnamitas abandonarem as negociações de paz em Paris.

 

Nixon, através da sua apoiante Anne Chennault - a sino-americana viúva do general Claire Lee Chennault, veterano do corpo de aviação que combateu na China na guerra contra o Japão - pressionou com sucesso, através do embaixador da República do Vietname em Washington, o Presidente Nguyen van Thieu a abandonar as conversações de paz.

 

O candidato republicano terá prometido a Thieu melhores condições políticas em futuras negociações para evitar que o Presidente Lyndon Johnson e o candidato democrata surgissem como mediadores bem-sucedidos numa guerra em que o envolvimento norte-americano acelerava desde o início dos anos 60.

 

Agora, os políticos são outros, mas o enredo tem similitudes e basta isso para comprometer de forma muito perigosa a Casa Branca e a capacidade de resposta dos Estados Unidos às crises que se avolumam.

 

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