Carmen Reinhart
Carmen Reinhart 24 de janeiro de 2017 às 20:00

A subida do dólar vai levar a uma intervenção em 2017?

Apesar de ser plausível esperar que o Tesouro sob a administração Trump queira reverter a subida do dólar, é também plausível que nenhuma outra grande economia ajude.

Um pequeno grupo de bancos centrais absteve-se de intervir no mercado cambial para estabilizar a taxa de câmbio das suas moedas ou para as conduzir na direcção desejada. Mesmo quando não intervêm directamente, as suas políticas de taxa de juro são frequentemente formuladas para serem compatíveis com os objectivos para a taxa de câmbio. Em resultado disso, as moedas que têm uma flutuação livre são pouco frequentes. Isto tem implicações importantes para as autoridades norte-americanas à medida que são confrontadas com uma subida acentuada da taxa de câmbio do dólar.

 

Quando há uma perda de confiança, quer potencial quer real, numa moeda isso ameaça acarretar grandes saídas de capitais, pelo que uma intervenção geralmente passa pela venda de reservas em moeda estrangeira de forma a mitigar a magnitude ou a velocidade da desvalorização da moeda. A perda de reservas que o Banco Popular da China atravessa é um exemplo relevante. A intervenção norte-americana mais recente no mercado cambial (algo que em geral tem sido raro) para suportar um dólar fraco remonta a 1992-1995.

 

Na outra extremidade do espectro, os receios sobre uma baixa competitividade internacional em resultado de uma valorização significativa da moeda pode ser mesmo mais comum entre os decisores políticos e as empresas voltadas para a exportação. Receios sobre moedas sobrevalorizadas levaram a discussões em muitos mercados emergentes nomeadamente em 2013. Além disso foram feitos esforços constantes para resistir à valorização que teve como resultado uma acumulação de reservas recorde por parte de muitos bancos centrais.

 

Os receios em torno de uma moeda forte não estão limitados às economias emergentes. À medida que a crise recente na periferia da Zona Euro se aprofundava, e o valor do euro caiu face ao franco suíço, o banco central da Suíça, apontando que um franco suíço forte era uma ameaça para a economia, introduziu uma indexação para a taxa de câmbio do franco suíço em Setembro de 2011. A medida limitou a valorização do franco suíço face ao euro porque o banco central estava pronto para comprar divisas estrangeiras na quantidade que fosse necessária. Depois de especular sobre um aumento das reservas, o limite foi levantado em Dezembro de 2014 e substituído por uma política de taxas de juro negativas.

 

Os Estados Unidos não têm estado livres destes receios. Na primeira metade da década de 1980, a seguir às subidas recorde das taxas de juro por parte da Reserva Federal dos Estados Unidos, o dólar valorizou quase 45% contra as outras grandes divisas. Com um dólar forte, os Estados Unidos perderam competitividade internacional e a balança comercial afundou para um mínimo histórico em 1985.

 

Estes desenvolvimentos abriram a porta ao Acordo de Plaza, que o meu colega Jeffrey Frankel descreveu como provavelmente a iniciativa política mais dramática no mercado cambial desde que o presidente Richard M Nixon determinou a flutuação do dólar em 1973. No Hotel Plaza, em Nova Iorque, a 22 de Setembro de 1985, as autoridades norte-americanas e as suas congéneres das principais economias mundiais concordaram em tomar uma acção concertada para parar e reverter a valorização do dólar. Foi um acordo precisamente porque envolvia uma coordenação política internacional entre os principais actores. Às declarações públicas juntou-se uma intervenção organizada no mercado (venda de dólares norte-americanos).

 

De facto, o dólar desvalorizou. Mas em que medida o acordo de Plaza contribuiu para esta desvalorização continua a ser motivo de algum debate. O que é certo é a relevância desse debate agora.

 

O dólar apreciou mais de 35% contra um cabaz de moedas desde que atingiu o seu mínimo em Julho de 2011. Apesar da valorização do dólar ter sido atribuída parcialmente à vitória inesperada de Donald Trump nas eleições presidenciais nos Estados Unidos, esta subida também reflecte o facto de a política monetária norte-americana estar pronta para ficar mais rígida numa altura em que há um cenário de manutenção dos estímulos monetários na Zona Euro e no Japão.

 

O presidente eleito, Donald Trump, durante a campanha prometeu reavivar a produção norte-americana mesmo que para o fazer tenha de impor tarifas e desmantelar acordos comerciais existentes. Um dólar forte é um grande obstáculo ao cumprimento dessa promessa. Talvez os mercados financeiros comecem a perceber que o dólar está sobrevalorizado e comecem a reduzir a sua posição. Se isso não acontecer, será altura para um outro acordo ao estilo do Acordo de Plaza? Mais importante que isso, quem estaria disponível para cooperar?

 

Além da significativa valorização acumulada do dólar norte-americano, há poucas semelhanças entre o ambiente actual e o que se vivia em 1985. Naquela altura, o crescimento real do PIB japonês estava acima dos 6%. Hoje, uma valorização contínua do iene provavelmente iria fazer descarrilar o progresso modesto alcançado pelo Banco do Japão através de uma subida da inflação e das expectativas para essa mesma inflação. Com o rácio de dívida pública sobre o PIB próximo de 250%, uma inflação mais elevada provavelmente vai ser parte da solução para a elevada dívida pública do Japão.

 

Por outro lado, a Alemanha, com o seu excedente da conta corrente recorde (excede 8% do PIB), pode suportar uma valorização. Mas, ao contrário do que aconteceu em 1985, num cenário em que o euro sobrevive aos seus desafios actuais, não será o banco central da Alemanha que se vai sentar à mesa em 2017. A partir da posição estratégica do Banco Central Europeu (BCE), que está a lidar com outra ronda de dificuldades na periferia (sobretudo em Itália, onde a fragilidade do sistema bancário está a levar à saída de capitais), o enfraquecimento do euro é uma dádiva.

 

Resta a China, agora a segunda maior economia do mundo, que não era parte integrante do acordo de 1985, para suportar o fardo da desvalorização do dólar. Mas a recente decisão da China de apertar os controlos de capital sublinha o desafio que enfrenta para evitar uma maior desvalorização do yuan. Além disso, dado o impacto negativo que teve um iene forte após o Acordo de Plaza no desempenho económico do Japão, não é claro por que é que a China consideraria que um yuan mais forte compensaria o risco.

 

Por outras palavras, apesar de ser plausível esperar que o Tesouro sob a administração Trump queira reverter a subida do dólar, é também plausível que nenhuma outra grande economia ajude. Se um dólar forte levar a uma intervenção no mercado cambial em 2017, o cenário mais provável é que a intervenção seja feita apenas pelos Estados Unidos.

 

Carmen Reinhart é professora de Sistema Financeiro Internacional na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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